Mural
MURAL
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Abissal

Soélio Fratapagalpa

Antes que me visitasse o sono naquela noite, meus olhos se encheram de minúsculas larvas e o mar invadiu meus ouvidos. Meus membros estufaram, e eu fui.

(Senhores, pouco me importam vossas pilhérias, delas eu já conheço o vinagre, guardai-nas, guardai-nas. Levai-me ao tribunal, caso julgardes que infrinjo as cláusulas do meu batismo. Podeis mesmo dar à gentalha a lavagem dos meus ossos, depois de descarnar-me – que bela jóia em vosso rosário de lágrimas! Estais em vosso pleno direito, não vos acanheis.)

No vestíbulo, antes do mergulho, a cordialidade camarada da étiquette despediu-se, e a gíria suja de todos os cais selou minha má vontade e me fez seu cúmplice. Soprei para dentro uma palavra ininteligível, numa língua surda, mas nada se moveu. Somente eu conhecia de minha condição de testemunha, e por isso achava poder chamar Deus pelo apelido, vede que loucura. Caminhei meu passo dormente dentro do veludo espesso da noite, sem mão nem bastão. Foi o bastante para que eu soubesse que há uma outra cegueira, mais escura, dentro da primeira e antiga.

Então! Descobri propriedades curativas na comicidade de meus trambolhões: vossa burla, vossa chalaça, não é bem isso o que desfranze o cenho e dissipa a bile? Sejamos honestos! Todos crêem nas estampas dos sonhos, na dignidade das orações, na virtude das abstinências, no rumor invisível das esferas celestes. Certamente há lugar para meu estupor em vossa ciência, por que não haveria? Além do mais, não poderia causar-vos mal nenhum, não sou fraco o bastante – e a prova é este esgar.

Todavia, creio que este convencimento deponha contra mim.

Arrojo-me, vá lá, não tenho mesmo outra saída, já farejo o ar pantanoso no rastro da Erêndira e revejo seus muitos acontecimentos funerários. Meus olhos não se moviam sob aquelas lentas estalagens; rumores de desastres manchavam meus calcanhares de fuligem e de sangue. De longe, seria muito fácil tomar-me por um fantasma desbotado, um fogo fátuo entre as ramagens, e, na verdade, muito pouco de mim restava nessas ocasiões – apenas o bastante para soletrar o idioma das sombras. Recordo-me muito bem daquela espécie de mendicância atenuada em que me aplicava pelas ruas desertas, à meia noite, perdido entre os andrajos encardidos dos muitos vícios de que me cercava. “Estou fraco, ai, por caridade, arranquem-me esta mortalha”, era a própria minha contínua mortalha, sem palavras e sem convicção. O ar aqui é apenas para fôlegos inoxidáveis! – reclamava como um cadáver que se entrega à intempérie, ao amor do próprio pus. Creio que a carne é bem mesmo um meio expiatório do espírito fraco, e creio nisso como numa justificativa, uma carta de alforria, única possibilidade de libertação de um negro. Que podem me ensinar os muitos pequenos inconvenientes do corpo, a flatulência, a gota, a sede não saciada – a mim, que estendi minhas vigílias por sobre uma campina abrasada? O mundo possui uma didática, resta descobri-la.

A lição não desempena?
Não te descoalha a gangrena?
Contas a dor como pena?
Medes o mundo em tua trena?

Mundo
Mundo
Mundo
Mundo
Só há visão se há cena
Mesmo quando a luz é plena
Quem na escuridão acena?
Quem te punciona e te drena?
Julga, condena:
São
Não
Tão
Cão
Quão
Hiena
Bebe na fonte, a regalo,
Dessa aguardente que envenena

Spleen

Soélio Fratapagalpa

Hoje, espantei para longe minhas certezas;
Não sei, por exemplo, se o solstício é de verão ou inverno.
Conheço apenas do betume noturno a fundura espessa,
O rastro molusco dos astros e a saudade dos amantes.
Já não sei, dentre tantas vidas, qual a que me toca,
Ou se toca, ou se esta boca plena de um grito surdo
E estes olhos desmedidos são de pavor ou gozo,
Ou de um pavoroso gozo, semelhante ao partir.
Nenhuma outra noite arrastará mais longo vestido de pêsames.
Que digo! – mais longa ainda é a ambição dos alfaiates;
Dura nas pestanas o gosto tíbio dum sono sem sonhos,
Como na mão da feiticeira a túmida rosa colhida.
Estou perdido entre os estilhaços alfanuméricos do calendário,
Preso nalguma data infinitesimal, nem agora, nem já.
Aqui não fazemos aniversário, ou descobrimos novas carícias.
Somente tua saliva ou teu suor fermenta entre meus dentes.

Estás ausente. Estou ausente. Talvez por isso mesmo 
Estes espectros recalcitrantes esganam a clepsidra,
Empenhados em massacrar nossas parcas felicidades canoras,
Em fustigar-nos com o tédio, a chuva e o silêncio.
Longe erram minhas certezas; abandonaram-me,
Tão sorrateiras e sem susto como o passeio dos gatos,
Tão mudas, tão dormentes como rios subterrâneos
Que secassem. Assim capitulou minha língua e emagreceram os nomes.
Tanto melhor: sou agora aquele em que todas as coisas não estão,
Em que as horas entristecidas coagularam, e estancaram as nuvens.
Sou igual a esta noite de solstício (não sei se de verão ou inverno),
Noite desde dentro, noite-resto, donde fugiram todas as cores.
Igual à noite primitiva das vidas que não surgiram.
Que sentido há em dizer “isto é por certo”, ou “é verdade”,
Justo eu, que não és? Melhor tudo em mim ter sido abandono,
Espera e tentativa. Se nada aguardo, ninguém poderá tomar-me de assalto.


TEZ AMARGA DA LIBERDADE

O pó da cíclica existência 
Fremi em minhas veias: 
Serpentes esguias 
À frágil essência 
Dos rebanhos. 

Uma ave alva  vara minha alvorada 
E as vagas pegadas de liberdade neste meu céu 
Valem mais que a grave imagem que guarda meus dias E nutre a minha áspera solidão. 

Busco sonhos - confesso! 
Mas sonhos que dilacerem a realidade , 
Enlouquecendo os pragmáticos,
Rompendo paradigmas 
Com seus feixes de ferina claridade: 
Verdade de um coração indefesso. 

A incognicível simplicidade da ascese 
Alimenta minha coragem de mortal poeta, 
Pois sei que onde uma rosa floresce 
Haverá sempre uma porta aberta 
E que não há revolução branca 
Na tez amarga da liberdade. 
 

ANDERSON CHRISTOFOLETTI
 


HORIZONTES


Lembrança que se espraia em meu coração. 
Fogo lauto, 
Grito exausto 
Que encontra em meu peito 
Leito pouco... 

Esta dor que pulsa e pungi ; 
Esta lágrima que porta seu nome; 
Esta alma que me exprime e me envolve. 

Momentos, sensações, pretensões ... 
Sua existência: 
Esta tatuagem em minha alma... 

Sua ausência: 
Esta lacuna em minha carne... 

Tanto e tanta falta... 
 

Os espinhos desta rosa 
Inquietam meu coração. 
 

Sua voz ecoa em meu pensamento 
E a intenção de sua pele em minhas mãos 
Guarda a chama de sua importância. 

Onde estará o meu porto: 
Futuro imprevisto? 

Onde estarão as palavras 
Que tanto queríamos falar, 
Mas que nunca ouvimos? 

Onde estará o laço que cingiria 
Nossas partes solitárias, 
Nossos corações sem itinerários, 
Nossos corpos: 
Perfeitos opostos, 
Nossas almas: 
Antigas trajetórias ... 

Do que não fomos , apetecemos... 

Horizonte sem donos; 
Horizonte de todos; 
Horizonte de ninguém... 

Mas o tempo não confinará 
O amor à lembrança. 

Mesmo sem o céu, sem a terra, sem um deus... 
Mesmo perdido na eterna espera, 
Sei que resistirei, pois tenho você em mim 
E, à esta dádiva, não cabe um adeus. 

ANDERSON CHRISTOFOLETTI


PRAGA
 

Maurício Tupinambá
 

Desgraçado sejas, oh cão burguês!
Que as pulgas de um milhão de gatos
Infestem o teu colchão!
Que o castelo encantado de teus sonhos,
Oh, príncipe ladrão!
Seja o calabouço escuro
Da tua prisão!
Que se te eletrifiquem as cercas;
Cresçam grades em tuas janelas;
Cubram-se de vidro os muros
Da tua mansão!
Símbolos abjetos do teu terror patético,
Do apreço miserável que tens ao ouro!

Para sempre insone sejas,
Vilão usurpador!
Que as paredes do teu quarto
Soprem, por toda a noite,
Os gemidos de fome das crianças
Que deixaste à míngua!...
E que te assaltem nas esquinas,
Que invadam teu refúgio
E raptem teus filhos,
Estuprem tuas meninas!...
Traia-te a esposa
Com o encanador e o mercenário!
Traia-te a esposa
Com o encanador e o marceneiro!
Traia-te a amante
Com qualquer aventureiro!
Traiam-te os amigos
Por algum pouco dinheiro!

Para sempre maldito sejas
(Oh, ASQUEROSA SANGUESSUGA!).
Que o teu pênis apodreça
E arda e feda!
Que o teu ventre repulsivo
E abobadado ceda!...
Cânceres famintos te corroam.
Oh, estelionatário mamparreiro!;
Ossívoro vampiro!;
Filho de uma porca!;
Neto de uma cadela!;
Tetraneto de uma puta!:
Bichoco! Bundão! Burguês!!


 

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