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Ana Cristina Cesar

BACK AGAIN
Larguei as botas na escada. Subi descalça, vesti a camisola de
algodão. Acabei com o Dalmadorm. Não rolei mais. Esqueci do
corpo; com olhos abertos fica tudo claro; eu estava dentro; a vida
inteira, a terra toda, os punks negros na esquina, negra com punhal.
Flash vermelho em luz neon piscando por entre as persianas: "aqui
morri", e depois de um minuto todas as paixões de novo. De novo e
uma paisagem só vista do alto. Não vejo meu corpo mas penso nele
com desejo e minha consciência é o teto do mundo, como se o forro
do meu crânio fosse o céu. Mas não vejo o osso duro. Quando a luz
neon piscou pela última vez lembrei do limbo, e ali também era o
inferno que doía no teto do mundo e o céu era vermelho. Me vi num
trem atravessando a Escócia e lendo um conto de KM. O conto se
acaba e eu fechava o livro e olhava para fora e meu pescoço estava
mole, miúdos de galinha, brilho de luz no mar do Norte, um velho
inspecionava tickets, encostei a cabeça na vidraça. Estava quente e
passava rápido e eu dormi sem querer (quando quero tenho insônia),
rumando para o norte.
TODA MULHER
a coisa que mais o preocupava
naquele momento
era estudo de mulhertoda mulher
dos quinze aos dezoito.Não sou mais mulher.
Ela quer o sujeito.
Coleciona histórias de amor.
SONETOPergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou euQue uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingidaPergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana CristinaE que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
FISIONOMIA
não é mentira
é outra
a dor que dói
em mim
é um projeto
de passeio
em círculo
um malogro
do objeto
em foco
a intensidade
de luz
de tarde
no jardim
é outra
outra a dor que dói
FLORES DO MAIS
devagar escreva
uma primeira letra
escreva
na imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
COMO RASURAR A PAISAGEM
a fotografia é um tempo
morto
fictício retorno àsimetria
secreto desejo dopoema
censura impossível
do poeta
fonte: Tanto