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Antonin Artaud

O Pesa-Nervos

(fragmento)
 
 

    Toda escrita é porcaria.
    Todos aqueles que saem de um lugar qualquer, para tentar explicar seja lá o que lhes passa no pensamento, são porcos.
    Toda gente literária é porca, especialmente essa do nosso tempo.
    Todos os que possuem pontos de referência no espírito, quero dizer, de um lado certo da cabeça, sobre lugares bem demarcados do cérebro; todos aqueles que são mestres da língua; todos aqueles para quem as palavras tem sentidos; todos aqueles para quem existe elevação da alma e correntes do pensamento, aqueles que são o espírito da sua época e que nomeiam essas correntes do pensamento; penso nas suas mesquinhas atividades precisas e nesse ranger de autômatos vomitado para todos os lados por seu espírito;
    – são porcos.
    Aqueles para os quais certas palavras têm sentido e certas maneira de ser, aqueles que têm tão boas maneiras; aqueles para quem os sentimentos podem ser classificados e que discutem um grau qualquer das suas hilariantes classificações, aqueles que ainda acreditam em "termos"; os que mexem com as ideologias de destaque na época; aqueles cujas mulheres falam tão bem, e falam das tendências da sua época; os que ainda acreditam numa orientação do espírito; os que seguem caminhos, que acenam com nomes, que fazem gritar as páginas dos livros;
    – esses são os piores porcos.

    ... (Escritos de Antonin Artaud, L&PM, 1983, trad. Cláudio Willer)
 

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