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Antonin ArtaudCarta ao Dalai-Lama
Somos teus mui fiéis servidores, ó Grande lama, concede-nos, envia-nos tuas luzes numa linguagem que nossos contaminados espíritos de europeus possam entender e, se necessário, transforma nosso Espírito, dá-nos um espírito voltado para esses cumes perfeitos onde o Espírito do Homem já não sofre mais.
Dá-nos um espírito sem hábitos, um espírito verdadeiramente congelado dentro do Espírito, ou então um Espírito com hábitos mais puros, os teus, se forem bons para a liberdade.
Estamos rodeados de papas decrépitos, literatos, crítico, cachorros; nosso Espírito está entre cães que pensam imediatamente ao nível da terra, que pensam irremediavelmente com o presente.
Ensina-nos, Lama, a levitação material dos corpos e como poderíamos deixar de estar presos à terra.
Pois bem sabes a que libertação transparente das almas, a que liberdade do Espírito no Espírito, oh Papa aceitável, oh Papa em espírito verdadeiro, nós nos referimos.
É com o olho interior que te contemplo, oh Papa no ápice do interior. É a partir do interior que me assemelho a ti, eu, ímpeto, idéia, língua, levitação, sonho, grito, renúncia à idéia, suspenso entre as formas, só esperando o vento.
(Escritos de Antonin Artaud, L&PM, 1983, trad. Cláudio Willer)