ARTHUR RIMBAUD
Arthur Rimbaud


1854 - 1891



RIMBAUD LIVRE (Ed. Perspectiva,1992)
 

VÊNUS ANADIÔMENE
 

Como de um verde túmulo em latão o vulto
De uma mulher, cabelos brunos empastados,
De uma velha banheira emerge, lento e estulto,
Com déficits bastante mal dissimulados;

Do colo graxo e gris saltam as omoplatas
Amplas, o dorso curto que entra e sai no ar;
Sob a pele a gordura cai em folhas chatas,
E o redondo dos rins como a querer voar...

O dorso é avermelhado e em tudo há um sabor
Estranhamente horrível; notam-se, a rigor,
Particularidades que demandam lupa...

Nos rins dois nomes só gravados: CLARA VENUS;
– E todo o corpo move e estende a ampla garupa
Bela horrorosamente, uma úlcera no ânus.

27 de julho de 1870 (trad. Augusto de Campos)
 

O BARCO BÊBADO
 

Quando eu atravessava os Rios impassíveis,
Senti-me libertar dos meus rebocadores.
Cruéis peles-vermelhas com uivos terríveis
Os espetaram nus em postes multicores.

Eu era indiferente à carga que trazia,
Gente, trigo flamengo ou algodão inglês.
Morta a tripulação e finda a algaravia,
Os Rios para mim se abriram de uma vez.

Imerso no furor do marulho oceânico,
No inverno, eu, surdo como um cérebro infantil,
Deslizava, enquanto as Penínsulas em pânico
viam turbilhonar marés de verde e anil.

O vento abençoou minhas manhãs marítimas.
Mais leve que uma rolha eu dancei nos lençóis
das ondas a rolar atrás de suas vítimas,
dez noites, sem pensar nos olhos dos faróis!

Mais doce que as maçãs parecem aos pequenos,
A água verde infiltrou-se no meu casco ao léu
E das manchas azulejantes dos venenos
E vinhos me lavou, livre de leme e arpéu.

Então eu mergulhei nas águas do Poema
do Mar, sarcófago de estrelas, latescente,
Devorando os azuis, onde às vezes – dilema
Lívido – um afogado afunda lentamente;

Onde, tingindo azulidades com quebrantos
E ritmos lentos sob o rutilante albor,
Mais fortes que o álcool, mais vastas que os nossos prantos,
fermentam de amargura as rubéolas do amor!

Conheço os céus crivados de clarões, as trombas,
Ressacas e marés: conheço o entardecer,
A Aurora em explosão como um bando de pombas,
E algumas vezes vi o que o homem quis ver!

Eu vi o sol baixar, sujo de horrores místicos,
Iluminando os longos glaciais;
Como atrizes senis em palcos cabalísticos,
Ondas rolando ao longe os frêmitos de umbrais!

Sonhei que a noite verde em neves alvacentas
Beijava, lenta, o olhar dos mares com mil coros,
Soube a circulação das seivas suculentas
E o acordar louro e azul dos fósforos canoros!

Por meses eu segui, tropel de vacarias
Histéricas, o mar estuprando as areias,
Sem esperar que aos pés de ouro das Marias
Esmorecesse o ardor dos Oceanos sem peias!

Cheguei a visitar as Flóridas perdidas
Com olhos de jaguar florindo em epidermes
De homens! Arco-íris tensos como bridas
No horizonte do mar de glaucos paquidermes.

Vi fermentarem pântanos imensos, ansas
Onde apodrecem Leviatãs distantes!
O desmoronamento da água nas bonanças
E abismos a se abrir no caos, cataratantes!

Geleiras, sóis de prata, ondas e céus cadentes!
Náufragos abissais na tumba dos negrumes,
Onde, pasto de insetos, tombam as serpentes
Dos curvos cipoais, com pérfidos perfumes!

Ah! se as crianças vissem o dourar das ondas,
Áureos peixes do mar azul, peixes cantantes...
– As espumas em flor ninaram minhas rondas
E as brisas da ilusão me alaram por instantes.

Mártir de pólos e de zonas misteriosas,
O mar a soluçar cobria os meus artelhos
Com flores fantasmais de pálidas ventosas
e eu, como uma mulher, me punha de joelhos...

Quase ilha a balouçar entre borras e brados
De gralhas tagarelas com olhar de gelo,
Eu vogava, e por minha rede os afogados
Passavam, a dormir, descendo a contrapelo.

Mas eu, barco perdido em baías e danças,
Lançado no ar sem pássaros pela torrente,
De quem os Monitores e os arpões das Hansas
Não teriam pescado o casco de água ardente;

Livre, fumando em meio às virações inquietas,
Eu que furava o céu violáceo como um muro
Que mancham, acepipe raro aos bons poetas,
Líquens de sol vômitos de azul escuro;

Prancha louca a correr com lúnulas e faíscas
E hipocampos de breu, numa escolta de espuma,
Quando os sóis estivais estilhaçam em riscas
O céu ultramarino e seus funis de bruma;

Eu que tremia ouvindo, ao longe, a estertorar,
O cio dos Behemóts e dos Maelstroms febris,
Fiandeiro sem fim dos marasmos do mar,
Anseio pela Europa e os velhos peitoris!

Eu vi os arquipélagos astrais! e as ilhas
Que o delírio dos céus desvela ao viajor:
– É nas noites sem cor que te esqueces e te ilhas,
Milhão de aves de ouro, ó futuro Vigor?

Sim, chorar eu chorei! São mornas as Auroras!
Toda lua é cruel e todo sol, engano:
O amargo amor opiou de ócios minhas horas.
Ah! que esta quilha rompa! Ah! que me engula o oceano!

Da Europa a água que eu quero é só o charco
Negro e gelado onde, ao crepúsculo violeta,
Um menino tristonho arremesse o seu barco
trêmulo como a asa de uma borboleta.

No meu torpor, não posso, ó vagas, as esteiras
Ultrapassar das naves cheias de algodões,
Nem vencer a altivez das velas e bandeiras,
Nem navegar sob o olho torvo dos pontões.

Tradução de Augusto de Campos
 



 
 

Elle est retrouvée!
 Quoi? L' éternité.
C est la mar mêlée
 Au soleil

Mon âme éternelle,
Observe ton voeu
Malgré la nuit seule
Et le jour en feu.

Donc tu te dégages
Des humains suffrages,
Des communs élans!
Tu voles selon...

— Jamais l' ésperance.
 Pas d' oríetur.
Science et patience,
Le suplice est sur.

Plus de lendemain,
Braises de satin,
        Votre ardeur
    C' ést le devoir.

Elle est retrouvée!
— Quoi? — L' éternité.
C' est la mer mêlée
 Au soleil.
 
 
 
 

Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
        Ao sol.

Minha alma imortal,
Cumpre a tua jura
Seja o sol estival
Ou a noite pura.

Pois tu me liberas
Das humanas quimeras,
Dos anseios vãos!
Tu voas então...

— Jamais a esperança.
Sem movimento.
Ciência e paciência,
O suplício é lento.

Que venha a manhã,
Com brasas de satã,
           O dever
           É vosso ardor.

Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
       Ao sol.
 
 
 
 

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    O saisons, ô châteaux!
Quelle âme est sans défauts?

J' ai fait la magique étude
Du Bonheur, qu' aucun n' élude.

Salut à lui, chaque fois
Que chante le coq gaulois.

Ah! je n' aurai plus d' envie:
Il s' est chargé de ma vie.

Ce charm a pris âme et corps,
Et dispersé les efforts.

   O saisons, ô châteaux!

L' heure de sa fuite, hélas!
Sera l' heure du trépas.

   O saisons, ô châteaux!
 
 
 
 

    Oh estações, oh castelos!
Que alma é sem defeitos?

Eu estudei a alta magia
Do Amor, que nunca sacia.

Saúdo-te toda vez
Que canta o galo gaulês.

Ah! Não terei mais desejos:
Perdi a vida em gracejos.
Tomou-me corpo e alento,
E dispersou meus pensamentos.

    Ó estações, ó castelos!

Quando tu partires, enfim
Nada restará de mim.

    Ó estações, ó castelos!
 
 
 
 

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Bal des Pendues
(fragment)
 

Dansent, dansent les paladins,
Les maigres paladins du diable,
Les squeletts des Saladins.
 
 
 

Baile dos Enforcados
(fragmento)
 

Dançam, dançam os paladinos,
Os magros paladinos do diabo,
Os esqueletos dos Saladinos.
 
 
 
 

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Chanson de la Plus Haute Tour
 

Oisive jeunesse
À tout asservie;
Par délicatesse
J' ai perdu ma vie.
Ah! Que le temps vienne
Où les coeurs s' éprennent.

Je me suis dit: laisse,
Et qu' on ne te voi:
Et sans la promesse
De plus hautes joies.
Que rien ne t' arrête
Auguste retraite.

J' ai tant fait patience
Qu' a jamais j' oublie;
Craintes et souffrances
Aux cieux sont parties.
Et la soif malsaine
Obscurcit mes veines.

Ainsi la Prairie
À l' oubli livrée,
Grandie, et fleurie
D' encens et d' ivraies
Au bourdon farouche
De cent sales mouches.

Ah! Mille veuvages
De la si pauvre âme
Qui n' a que l' image
De la Notre-Dame!
Est-ce que l' on prie
La Vierge Marie?

Oisive jeunesse
À tout asservie
Par délicatesse
J'ai perdu ma vie.
Ah! Que le temps vienne
Où les coeurs s' éprennent!
 
 
 

Canção da Torre Mais Alta
 

Ociosa juventude
De tudo pervertida
Por minha virtude
Eu perdi a vida.
Ah! Que venha a hora
Que as almas enamora.

Eu disse a mim: cessa,
Que eu não te veja:
Nenhuma promessa
De rara beleza.
E vá sem martírio
Ao doce exílio.

Foi tão longa a espera
Que eu não olvido.
O terror, fera,
Aos céus dedico.
E uma sede estranha
Corrói-me as entranhas.

Assim os Prados
Vastos, floridos
De mirra e nardo
Vão esquecidos
Na viagem tosca
De cem feias moscas.

Ah! A viuvagem
Sem quem as ame
Só têm a imagem
Da Notre-Dame!
Será a prece pia
À Virgem Maria?

Ociosa juventude
De tudo pervertida
Por minha virtude
Eu perdi a vida.
Ah! Que venha a hora
Que as almas enamora!
 
 
 
 

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Au Cabaret-Vert
cinq heures du soir
 

Depuis huit jours j' avais déchiré mes bottines
Aux cailloux des chemins. J' entrais à Charleroi.
— Au Cabaret-Vert: je demandai des tartines
De beurre et du jambon qui fût à moitié froid.

Bienhereux, j' allongeai les jambes sous la table
Verte: je contemplai les sujets très naifs
De la tapisserie. — Et ce fut adorable
Quand la fille aux tétons énormes, aux yeux vifs,

— Celle-là! ce n' est pas un baiser qui l' épeure!
Rieuse, m' apporta des tartines de beurre,
Du jambon tiède, dans un plat colorié,

Du jambon rose et blanc parfumé d' une gousse
D' ail — et m' emplit la chope immense, avec sa mousse
Que dorait un rayon de soleil arriéré.
 

Octobre 1870
 
 
 

No Cabaré-Verde
às cinco horas da tarde
 

Depois de oito dias, larguei as botinas
Pelo caminho. Eu entrei em Charleroi.
— No Cabaré-Verde: pedi torradas finas,
Manteiga e presunto, que é frio o lugar.

Feliz, estiquei as pernas sob a mesa
Verde: e contemplei os toscos motivos
Da tapeçaria. — E foi uma beleza
Quando a vi, enormes tetas, olhos vivos,

É ela! Não é um beijo que a apavora!
Risonha, trouxe a refeição na hora,
O presunto tostado, num belo prato,

O presunto róseo e branco perfumado
Pelo alho — e encheu-me o copo ávido
De espuma brilhante como um raio de sol.
 

Outubro de 1870

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L' étoile a pleuré rose au coeur de tes oreilles,
L' infini roulé blanc de ta nuque à tes reins
La mer a perlé rousse à tes mammes vermeilles
Et l' Homme saigné noir à ton flanc souverains.
 
 
 
 

A estrela chorou rósea em tuas orelhas,
O infinito rolou branco de tua nuca aos rins,
O mar perolou roxo em tuas mamas vermelhas
E o Homem sangrou negro em teus flancos senis.

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Ma Bohème
(fantasie)
 

Je m' en allais, les poings dans mes poches crevées;
Mon paletot aussi devenait idéal;
J' allais sous le ciel, Muse! et j' étais ton féal;
Oh! là là! que d' amours splendides j' ai rêvées!

Mon unique culotte avait un large trou.
— Petit-Poucet rêveur, j' égrenais dans ma course
Des rimes. Mon auberge était à la Grande-Ourse.
— Mes étoilles au ciel avaient un doux frou-frou.

Et je les écoutais, assis au bord des routes,
Ces bons soirs de septembre où je sentais des gouttes
De rosée à mon front, comme un vin de vigueur;

Où, rimant au millieu des ombres fantastiques,
Comme des lyres, je tirais des élastiques
De mes souliers blessés, un pied près de mon coeur!
 
 
 

Minha Boemia
(fantasia)
 

Eu caminhava, as mãos soltas nos bolsos gastos;
O meu paletó não era bem o ideal;
Ia sob o céu, Musa! Teu amante leal;
Ah! E sonhava mil amores insensatos

Minha única calça tinha um largo furo.
Pequeno Polegar, eu tecia no percurso
Um rosário de rimas. A Grande Ursa,
O meu albergue, brilhava no céu escuro.

Sentado na sargeta, só, eu a ouvia
Nessa noite de setembro em que sentia
O odor das rosas, que vinho vigoroso!

Ali, entre inúmeros ombros fantásticos,
Rimava com a débil lira dos elásticos
De meus sapatos, e o coração doloroso!

traduções de Claudio Daniel.


Os Corvos

Senhor, quando os campos são frios
E nos povoados desnudos
Os longos ângelus são mudos...
Sobre os arvoredos vazios
Fazei descer dos céus preciosos
Os caros corvos deliciosos.

Hoste estranha de gritos secos
Ventos frios varrem nossos ninhos!
Vós, ao longo dos rios maninhos,
Sobre os calvários e seus becos,
Sobre as fossas, sobre os canais,
Dispersai-vos e ali restais.

Aos milhares, nos campos ermos,
Onde há mortos recém-sepultos,
Girai, no inverno, vossos vultos
Para cada um de nós vos vermos,
Sede a consciência que nos leva,
Ó funerais aves das trevas!

Mas, anjos do ar, no alto da fronde,
Mastros sem fim que os céus encantam,
Deixai os pássaros que cantam
Aos que no breu do bosque esconde,
Lá, onde o escuro é mais escuro,
Uma derrota sem futuro.

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Delírios: Virgem Louca - O Esposo Infernal

Ouçamos a confissão de um companheiro de inferno:
“Ó divino Esposo, meu Senhor, não desdenheis a confissão da mais triste de vossas servas. Sou uma perdida. Uma bêbada. Uma impura. Ah! que vida!
“Perdão, perdão, Senhor divino! Ah! perdão! Quantas lágrimas! E quantas ainda por chorar, mais tarde!
“Mais tarde, conhecerei o Divino Esposo! Nasci submissa a Ele. - O outro pode me espancar agora!
“Agora, estou no fim do mundo! Ó minhas amigas!... não, minhas amigas não, que estupidez!
“Ah! sofro, e choro. Sofro deveras. No entanto, tudo me é permitido, desprezada pelos mais desprezíveis corações.
“Mas, façamos afinal a confidência, pronta a repeti-la vinte outras vezes, - por inócua, insignificante que seja!
“Sou escrava do Esposo infernal, o que levou à perdição as virgens loucas. Dele mesmo, esse demônio. Não de um espectro, ou de um fantasma. Mas eu que perdi o entendimento, que estou condenada e morta para o mundo, - a mim, não matarão! - Como descrevê-lo a vós! Já nem sei falar. Estou de luto, choro e tenho medo. Dai-me Senhor, um refrigério, eu vos suplico!
“Sou viúva... - Eu era viúva... fui muito honesta antigamente, é certo, mas não nasci para tornar-me um esqueleto!... - Ele, quase uma criança... Fui seduzida por suas misteriosas delicadezas. Larguei todo dever humano para seguí-lo. Que vida! Ausentes da vida verdadeira. Não estamos no mundo. Vou para onde ele vai, tenho que ir. E não raro ele se volta contra mim, a pobre alma. O Demônio! - Ele é bem um demônio, já sabeis, e não um homem.
“Ouço-o dizer: “Não amo as mulheres. Há que reinventar o amor, isto é sabido. Elas só querem segurança. Uma vez obtida, põem de lado a beleza e o coração: resta um frio desdém, que alimenta hoje em dia o matrimônio. Ou vejo então mulheres, marcadas com o signo da ventura, com as quais, até eu, poderia fazer camaradagem, cedo devoradas por uns brutamontes tão sensíveis quanto fogueiras...”
“Vejo-o fazer da infâmia a glória, da crueldade um atrativo. ‘Sou de uma raça antiga: meus pais eram escandinavos; eles trespassavam as próprias costas, bebiam o próprio sangue. - Farei incisões por todo o corpo, vou tatuar- me, quero ficar horroroso como um mongol, verás, uivarei pelas ruas. Quero enlouquecer de raiva. Nunca me mostreis jóias, eu me contorceria e me arrastaria pelo chão! - Em outras, bêbado, postava-se nas ruas ou casas, para assustar-me mortalmente. - ‘Um dia me cortarão mesmo o pescoço; será horrível.’ Oh, as vezes em que assumia um ar de crime!
“Vez por outra fala, numa espécie de algaravia comovida, sobre a morte que leva ao arrependimento, sobre a morte que leva ao arrependimento, sobre os infelizes que certamente existem, os trabalhos penosos, as despedidas que estraçalham corações. Nos antros em que nos embriagávamos, chorava ao pensar na gente em torno, rebanho da miséria. Soerguia os bêbados caídos nas vielas escuras. Tinha essa piedade que a mãe perversa demonstra por crianças. - Caminhava com trejeitos de menina que vai ao catecismo. - Afetava saber de tudo, arte, comércio, medicina. - eu o seguia, era preciso!
“Eu via toda a encenação de que ele, mentalmente, se cercava; vestes, roupas, móveis: atribuía-lhe armas, uma nova imagem. Via tudo quanto lhe interessava, da maneira que ele o teria querido para si. Quando me parecia estar de ânimo abatido, lá o seguia eu, nos seus atos estranhos e complicados, aonde fosse, bons ou maus: tinha certeza de não poder jamais penetrar em seu mundo. Junto ao amado corpo adormecido, quantas horas velei noites sem fim, a indagar porque fugia tanto à realidade. Jamais alguém teve tamanha ânsia. Reconhecia - sem temer por sua vida - que ele podia representar séria ameaça à sociedade. - Possui talvez segredos de mudar a vida? Não creio, só vive a procurá-los, eu dizia comigo. Mas certo é que sua caridade tem feitiço, e dela estou prisioneira. Alma alguma teria tanta força - a força do desespero! - para suportá-la, - para ser protegida e amada por ele. Aliás, não o conseguia imaginar com outra alma: podemos ver o nosso Anjo, jamais o Anjo dos outros, - eu suponho. Em sua alma eu vivia como num palácio que se manda esvaziar para que não reste ninguém tão pouco nobre quanto nós: eis tudo. Ai de mim! dependia muito dele. Mas ele, que pretendia com minha existência apagada e pusilânime? Só se ele me matasse, faria-me melhor! Tristemente despeitada, eu lhe dizia às vezes: “Eu te entendo”. Ele erguia os ombros..
“Desse modo, quanto mais se renova a minha mágoa, e por que me achasse cada vez mais perdida ante meus olhos - e aos de todos que em mim se fixassem, não fosse eu condenada para sempre a total esquecimento! - tanto mais sentia fome de sua bondade. Seus beijos e abraços amigos abriam-me um céu, sombrio céu onde eu entrava e gostaria de ficar, pobre, surda, muda, cega. Já me estava acostumando. Eu nos via, como a duas crianças inocentes, livres a passear no Paraíso da tristeza. Nós nos entendíamos. Cheios de emoção, trabalhávamos juntos. Mas, ao fim de penetrante carícia, dizia-me: ‘Como te parecerá estranho tudo isso por que passaste, quando eu não estiver mais aqui. Quando não mais tiveres meus braços em redor de teu pescoço, nem meu peito para nele repousares, nem esta boca em tuas pálpebras. Pois força é que um dia eu me vá para bem longe. Tenho que ajudar os outros: é meu dever. Ainda que não me seja nada aprazível... alma querida...’ Eu me antevia então, se ele partisse, tombando na vertigem, precipitada na sombra mais atroz: a morte. Forçava-o prometer que não me deixaria nunca. Vinte vezes me fez essa promessa de amante. Tão frívola quanto ao lhe dizer: “Eu te entendo.”
“Ah! nunca tive ciúmes dele. Não creio que me abandone. E o futuro? Não tem profissão, nunca trabalhará. Só quer viver sonâmbulo. Bastariam sua caridade e sua bondade, para dar-lhe direito ao mundo real? Esqueço, por instante, a miséria em que me encontro: ele me dará forças, viajaremos juntos, caçaremos nos desertos, dormiremos nas calçadas de cidades desconhecidas, sem cuidados, sem preocupações. Ou despertarei de repente, e as leis e costumes estarão mudados, - graças a seu poder mágico, - ... o mundo permanecendo o mesmo, me deixará entregue a meus desejos, alegrias, despreocupações. Oh! me darás essa vida aventurosa que existe nos livros infantis, para recompensar-me do tanto que sofri? Isso ele não pode. Ignoro seu ideal. Disse-me ter remorsos, esperanças: mas não deve referir-se a mim. Será que fala com Deus? Talvez eu me devesse dirigir a Deus. Estou no mais profundo abismo, e não sei mais rezar.
“Se me explicasse suas tristezas, poderia compreendê-las melhor que a seus escárnios? Ele me provoca, passa horas fazendo-me envergonhar de tudo que me impressionava no mundo, e se irrita quando choro.
“Estas vendo aquele jovem elegante, que entra numa bela e calma residência: seu nome é Duval, Dufour, Armand, Maurice, sei lá. Uma mulher devotou amor a esse idiota: já morreu, e hoje é decerto uma santa no céu. Tu me farás morrer, como ele fez a essa mulher. É nosso destino, o nosso, o dos corações caritativos...” Pobre de mim! havia dias em que todas as pessoas em atividade lhe pareciam joguetes de delírios grotescos: ria-se horrivelmente, um tempo imenso. - Depois, readquiria seu jeito de jovem mãe, de irmã amada. Se ele fosse menos selvagem, estaríamos salvos! Mas até sua doçura é mortal. Eu o sigo submissa. - Ah! que louca!
“Um dia talvez desapareça por milagre; mas, se ele deve subir a um céu, força é que eu saiba, para que possa ver um pouco a assunção de meu querido amigo!”
Que casal mais louco!
(Obra completa de Rimbaud - 2º volume - Prosa Poética, editado pela Topb

ooks em 1998 - tradução de Ivo Barroso)

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Noturno Vulgar

    Um sopro abre fendas operádicas nas paredes, - embaralha o eixo dos tetos podres, - dispersa os limites das lareiras, - eclipsa vidraças. - Pelas videiras, apoiando o pé numa gárgula, - desci nesse côche de uma época bem indicada pelos espelhos convexos, almofadas bojudas e sofás distorcidos.
    Carro funerário do meu sono, solitário, casa de pastor de minha tolice, o veículo vira sobre o mato da grande estrada desaparecida: e num defeito no alto do espelho, à direita, giram pálidas figuras lunares, folhas, seios; - Um verde e um azul escuros invadem a imagem. Desatrelagem perto de uma mancha de cascalho.
    - Aqui vão assobiar às tempestades, e às Sodomas, - e às Solimas, - e
aos animais ferozes e aos exércitos,
    - (Postilhões e animais de sonho vão voltar sob as matas mais sufocantes
para me afogar até os olhos na nascente de seda)
    - E a nos enviar, açoitados por ondas crispadas e bebidas derramadas,
rolando entre latidos de dogues...
    - Um sopro dispersa os limites da lareira.



fonte: pop box - Sépia zine
 
 

poesia