BERNARDO GUIMARÃES
Bernardo Guimarãe
BERNARDO JOAQUIM DA SILVA GUIMARÃES nasceu em
Ouro Preto, Minas Gerais, no ano de 1825, filho legítimo de
João Joaquim da Silva Guimarães e Constança Beatriz de Oliveira.
A partir dos quatro anos, e até um momento da adolescência não fixado
 pelos biógrafos, viveu em Uberaba e Campo Belo, impregnando-se das
paisagens que descreveria com predileção nos seus romances.  Antes dos
17 estava de volta a Ouro Preto, onde terminou os preparatórios,
matriculando-se tardiamente, em 1847, na Faculdade de São Paulo,
na qual, sempre mau estudante, se bacharelou em 2a época no começo
de 1852, depois de um quinquênio ruidoso de troças, patuscadas, orgia
e irreverência. Já então o distinguiam a indisciplina, as alternativas de bom
humor e melancolia, o coração bondoso e a completa generosidade.
Juiz municipal de Catalão, Província de Goiás, em 1852-1854 e 1861-1863, foi,
de permeio, jornalista no Rio, de 1858 a 1860 ou 61.  Magistrado descuidado e
humano, promoveu no segundo período de judicatura um júri sumário para libertar
os presos, pessimamente instalados, e, intervindo motivos de conflito com o superior,
sofreu processo, sem resultado. Depois de nova estadia no Rio, fixou-se a partir
de 66 na cidade natal, onde casou no ano seguinte e foi nomeado professor de
retórica e poética no Liceu Mineiro.  Extinta a cadeira, foi nomeado em 73 professor
de latim e francês em Queluz, atual Lafayette, onde morou uns poucos anos.  Também
 esta cadeira foi extinta, e Basílio de Magalhães sugere que o motivo deve ter sido,
 em ambos os casos, ineficácia e pouca assiduidade do poeta. Voltando a Ouro Preto,
ali viveu até a morte, em 1884. 

Embora tenha começado a escrever ficção nos fins do decênio de 50, e tenha feito
poesias até os últimos anos, como qualidade a sua melhor produção poética vai até
o decênio de 60; a partir daí, realiza-se de preferência na ficção.  Estreando com os
Cantos da Solidão em 1852, reune-os com outros em 1865 nas Poesias.  De 1866 é a
 publicação parcelada d'O Ermitão do Muquém (posto em livro em 69, mas redigido em 58),
seguido por Lendas e Romances, 1871; O Garimpeiro, 1872; Lendas e tradições da Província
 de Minas Gerais (incluindo A Filha do Fazendeiro) e O Seminarista, 1872; O Indio Afonso, 1873;
A Escrava Isaura, 1875; Maurício, 1877; A Ilha Maldita e O Pão de Ouro, 1879; Rosaura,
a Enjeitada, 1883.  Publicara mais duas coletâneas de versos: Novas Poesias, 1876, e
Folhas de Outono, 1883.  Postumamente apareceram o romance O Bandido do Rio das Mortes, 1904,
e o drama A Voz do Pajé, 1914.  Deve-se registrar além disso uma saborosa produção de poesia
obscena, cuja maioria se terá perdido, sendo algumas recolhidas em folheto. 
  
  
 

Fonte da biografia: Antônio Cândido. Formação da Literatura Brasileira. 
1o vol. Belo Horizonte, Itatiaia, 1981, pp. 383-4. 
  


A Origem do Mênstruo
De uma fábula inédita de Ovídio, achada nas escavações de Pompéia
 e vertida em latim vulgar por Simão de Nuntua
Stava Vênus gentil junto da fonte 
fazendo o seu pentelho, 
com todo o jeito, pra que não ferisse 
das cricas o aparelho.
Tinha que dar o cu naquela noite
ao grande pai Anquises,
o qual, com ela, se não mente a fama,
passou dias felizes...

Rapava bem o cu, pois resolvia
na mente altas idéias:
— ia gerar naquela heróica foda
o grande e pio Enéias.

Mas a navalha tinha o fio rombo,
e a deusa, que gemia,
arrancava os pentelhos e, peidando,
caretas mil fazia!

Nesse entretanto, a ninfa Galatéia,
acaso ali passava,
e vendo a deusa assim tão agachada,
julgou que ela cagava...

Essa ninfeta travessa e petulante
era de gênio mau,
e por pregar um susto à mãe do Amor
atira-lhe um calhau...

Vênus se assusta. A Branca mão mimosa
se agita alvoroçada,
e no cono lhe prega (oh! caso horrendo!)
tremenda navalhada.

Da nacarada cona, em sutil fio,
corre pupúrea veia,
e nobre sangue do divino cono
as águas purpureia...

(É fama que quem bebe dessas águas
jamais perde a tensão
e é capaz de foder noites e dias,
até no cu de um cão!)

— "Ora porra" — gritou a deusa irada,
e nisso o rosto volta...
E a ninfa, que conter-se não podia,
uma risada solta.

A travessa menina mal pensava
que, com tal brincadeira,
ia ferir a mais mimosa parte
da deusa regateira...

— "Estou perdida!" - trêmula murmura
a pobre Galatéia,
vendo o sangue correr do rósco cono
da poderosa déia...

Mas era tarde! A Cípria, furibunda,
por um momento a encara,
e, após instantes, com severo acento,
nesse clamor dispara:

"Vê! Que fizeste, desastrada ninfa,
que crime cometeste!
Que castigo há no céu, que punir possa
um crime como este?!

Assim, por mais de um mês inutilizas
o vaso das delícias...
E em que hei de gastar das longas noites
as horas tão propícias?

Ai! Um mês sem foder! Que atroz suplício...
Em mísero abandono,
que é que há de fazer, por tanto tempo,
este faminto cono?...

Ó Adonis! Ó Júpiter potentes!
E tu, mavorte invito!
E tu, Aquiles! Acudi de pronto
da minha dor ao grito!

Este vaso gentil que eu tencionava
tornar bem fresco e limpo
para recreio e divinal regalo
dos deuses do Alto Olimpo.

Vede seu triste estado, ó! Que esta vida
em sangue já se esvai-me!
Ó Deus, se desejais ter foda certa
vingai-vos e vingai-me!

Ó ninfa, o teu cono sempre atormente
perpétuas comichões,
e não aches quem jamais nele queira
vazar os seus colhões...

Em negra podridão imundos vermes
roam-te sempre a crica
e à vista dela sinta-se banzeira
a mais valente pica!

De eterno esquentamento flagelada,
verta fétidos jorros,
que causem tédio e nojo a todo mundo,
até mesmo aos cachorros!"

Ouviu-lhe estas palavras piedosas
do Olimpo o Grão-Tonante,
que em pívia ao sacana do Cupido
comia nesse instante...

Comovido no íntimo do peito,
das lástimas que ouviu,
manda ao menino que, de pronto, acuda
à puta que o pariu...

Ei-lo que, pronto, tange o veloz carro
de concha alabastrina,
que quatro aladas porras vão tirando
na esfera cristalina

Cupido que as conhece e as rédeas bate
da rápida quadriga,
co'a voz ora as alenta, ora co'a ponta
das setas as fustiga.

Já desce aos bosques onde a mãe, aflita,
em mísera agonia,
com seu sangue divino o verde musgo
de púrpura tingia...

No carro a toma e num momento chega
à olímpica morada,
onde a turba dos deuses, reunida,
a espera consternada!

Já Mercúrio de emplastros se a aparelha
para a venérea chaga,
feliz porque naquele curativo
espera certa a paga...

Vulcano, vendo o estado da consorte,
mil pragas vomitou...
Marte arranca um suspiro que as abóbadas
celestes abalou...

Sorriu o furto a ciumenta Juno,
lembrando o antigo pleito,
e Palas, orgulhosa lá consigo,
resmoneou: — "Bem-feito!"

Coube a Apolo lavar dos roxos lírios
o sangue que escorria,
e de tesão terrível assaltado,
conter-se mal podia!

Mas, enquanto se faz o curativo,
em seus divinos braços,
Jove sustém a filha, acalentando-a
com beijos e com abraços.

Depois, subindo ao trono luminoso,
com carrancudo aspeto,
e erguendo a voz troante, fundamenta
e lavra este DECRETO:

— "Suspende, ó filha, os lamentos justos
por tão atroz delito,
que no tremendo Livro do Destino
de há muito estava escrito.

Desse ultraje feroz será vingado
o teu divino cono,
e as imprecações que fulminaste
agora sanciono.

Mas, inda é pouco: — a todas as mulheres
estenda-se o castigo
para expiar o crime que esta infame
ousou para contigo...

Para punir tão bárbaro atentado,
toda humana crica,
de hoje em diante, lá de tempo em tempo,
escorra sangue em bica...

E por memória eterna chore sempre
o cono da mulher,
com lágrimas de sangue, o caso infando,
enquanto mundo houver..."

Amém! Amém! com voz atroadora
os deuses todos urram!
E os ecos das olímpicas abóbadas,
Amém! Amém! Sussurram...
 



 

A Orgia
dos Duendes
 
 
 

I
Meia-noite soou na floresta
No relógio de sino de pau;
E a velhinha, rainha da festa,
Se assentou sobre o grande jirau.

Lobisome apanhava os gravetos
E a fogueira no chão acendia,
Revirando os compridos espetos,
Para a ceia da grande folia.

Junto dele um vermelho diabo
Que saíra do antro das focas,
Pendurado num pau pelo rabo,
No borralho torrava pipocas.

Taturana, uma bruxa amarela,
Resmungando com ar carrancudo,
Se ocupava em frigir na panela
Um menino com tripas e tudo.

Getirana com todo o sossego
A caldeira da sopa adubava
Com o sangue de um velho morcego,
Que ali mesmo co’as unhas sangrava.

Mamangava frigia nas banhas
Que tirou do cachaço de um frade
Adubado com pernas de aranha,
Fresco lombo de um frei dom abade.

Vento sul sobiou na cumbuca,
Galo-Preto na cinza espojou;
Por três vezes zumbiu a mutuca,
No cupim o macuco piou.

E a rainha co’as mãos ressequidas
O sinal por três vezes foi dando,
A corte das almas perdidas
Desta sorte ao batuque chamando:

"Vinde, ó filhas do oco do pau,
Lagartixas do rabo vermelho,
Vinde, vinde tocar marimbau,
Que hoje é festa de grande aparelho.

Raparigas do monte das cobras,
Que fazeis lá no fundo da brenha?
Do sepulcro trazei-me as abobras,
E do inferno os meus feixes de lenha.

Ide já procurar-me a bandurra
Que me deu minha tia Marselha,
E que aos ventos da noite sussura,
Pendurada no arco-da-velha.

Onde estás, que inda aqui não te vejo,
Esqueleto gamenho e gentil?
Eu quisera acordar-te c’um beijo,
Lá no teu tenebroso covil.

Galo-preto da torre da morte,
Que te aninhas em leito de brasas,
Vem agora esquecer tua sorte,
Vem-me em torno arrastar tuas asas.

Sapo-inchado, que moras na cova
Onde a mão do defunto enterrei,
Tu não sabes que hoje é lua nova,
Que é o dia das danças da lei?

Tu também, ó gentil Crocodilo,
Não deplores o suco das uvas;
Vem beber excelente restilo
Que eu do pranto extraí das viúvas.

Lobisome, que fazes, meu bem
Que não vens ao sagrado batuque?
Como tratas com tanto desdém,
Quem a c’roa te deu de grão-duque?”
 
 

II

Mil duendes dos antros saíram
Batucando e batendo matracas,
E mil bruxas uivando surgiram,
Cavalgando em compridas estacas.

Três diabos vestidos de roxo
Se assentaram aos pés da rainha,
E um deles, que tinha o pé coxo,
Começou a tocar campainha.

Campainha, que toca, é caveira
Com badalo de casco de burro,
Que no meio da selva agoureira
Vai fazendo medonho sussurro.

Capetinhas, trepados nos galhos
Com o rabo enrolado no pau,
Uns agitam sonoros chocalhos,
Outros põem-se a tocar marimbau.

Crocodilo roncava no papo
Com ruído de grande fragor:
E na inchada barriga de um sapo
Esqueleto tocava tambor.

Da carcaça de um seco defunto
E das tripas de um velho barão,
De uma bruxa engenhosa o bestunto
Armou logo feroz rabecão.

Assentado nos pés da rainha
Lobisome batia a batuta
Co’a canela de um frade, que tinha
Inda um pouco de carne corruta.

Já ressoam timbales e rufos,
Ferve a dança do cateretê;
Taturana, batendo os adufos,
Sapateia cantando - o le rê!

Getirana, bruxinha tarasca,
Arranhando fanhosa bandurra,
Com tremenda embigada descasca
A barriga do velho Caturra.

O Caturra era um sapo papudo
Com dous chifres vermelhos na testa,
E era ele, a despeito de tudo,
O rapaz mais patusco da festa.

Já no meio da roda zurrando
Aparece a mula-sem-cabeça,
Bate palmas, a súcia berrando
- Viva, viva a Sra. Condessa!...

E dançando em redor da fogueira
Vão girando, girando sem fim;
Cada qual uma estrofe agoureira
Vão cantando alternados assim:
 
 
 
 
 

III

TATURANA

Dos prazeres de amor as primícias,
De meu pai entre os braços gozei;
E de amor as extremas delícias
Deu-me um filho, que dele gerei.

Mas se minha fraqueza foi tanta,
De um convento fui freira professa;
Onde morte morri de uma santa;
Vejam lá, que tal foi esta peça.
 
 
 

GETIRANA

Por conselhos de um cônego abade
Dous maridos na cova soquei;
E depois por amores de um frade
Ao suplício o abade arrastei.

Os amantes, a quem despojei,
Conduzi das desgraças ao cúmulo,
E alguns filhos, por artes que sei,
Me caíram do ventre no túmulo.
 
 
 

GALO-PRETO

Como frade de um santo convento
Este gordo toutiço criei;
E de lindas donzelas um cento
No altar da luxúria imolei.

Mas na vida beata de ascético
Mui contrito rezei, jejuei,
Té que um dia de ataque apoplético
Nos abismos do inferno estourei.
 
 
 
 

ESQUELETO

Por fazer aos mortais crua guerra
Mil fogueiras no mundo ateei;
Quantos vivos queimei sobre a terra,
Já eu mesmo contá-los não sei.

Das severas virtudes monásticas
Dei no entanto piedosos exemplos;
E por isso cabeças fantásticas
Inda me erguem altares e templos.
 
 
 

MULA-SEM-CABEÇA

Por um bispo eu morria de amores,
Que afinal meus extremos pagou;
Meu marido, fervendo em furores
De ciúmes, o bispo matou.

Do consórcio enjoei-me dos laços,
E ansiosa quis vê-los quebrados,
Meu marido piquei em pedaços,
E depois o comi aos bocados.

Entre galas, veludo e damasco
Eu vivi, bela e nobre condessa;
E por fim entre as mãos do carrasco
Sobre um cepo perdi a cabeça.
 
 
 

CROCODILO

Eu fui papa; e aos meus inimigos
Para o inferno mandei c’um aceno;
E também por servir aos amigos
Té nas hóstias botava veneno.

De princesas cruéis e devassas
Fui na terra constante patrono;
Por gozar de seus mimos e graças
Opiei aos maridos sem sono.

Eu na terra vigário de Cristo,
Que nas mãos tinha a chave do céu,
Eis que um dia de um golpe imprevisto
Nos infernos caí de boléu.
 
 
 

LOBISOME

Eu fui rei, e aos vassalos fiéis
Por chalaça mandava enforcar;
E sabia por modos cruéis
As esposas e filhas roubar.

Do meu reino e de minhas cidades
O talento e a virtude enxotei;
De michelas, carrascos e frades
Do meu trono os degraus rodeei.

Com o sangue e suor de meus povos
Diverti-me e criei esta pança,
Para enfim, urros dando e corcovos,
Vir ao demo servir de pitança.
 
 
 

RAINHA

Já no ventre materno fui boa;
Minha mãe, ao nascer, eu matei;
E a meu pai, por herdar-lhe a coroa
Eu seu leito co’as mãos esganei.

Um irmão mais idoso que eu,
C’uma pedra amarrada ao pescoço,
Atirado às ocultas morreu
Afogado no fundo de um poço.

Em marido nenhum achei jeito;
Ao primeiro, o qual tinha ciúmes,
Uma noite co’as colchas do leito
Abafei para sempre os queixumes.

Ao segundo, da torre do paço
Despenhei por me ser desleal;
Ao terceiro por fim num abraço
Pelas costas cravei-lhe um punhal.

Entre a turba de meus servidores
Recrutei meus amantes de um dia;
Quem gozava meus régios favores
Nos abismos do mar se sumia.

No banquete infernal da luxúria
Quantos vasos aos lábios chegava,
Satisfeita aos desejos a fúria,
Sem piedade depois os quebrava.

Quem pratica proezas tamanhas
Cá não veio por fraca e mesquinha,
E merece por suas façanhas
Inda mesmo entre vós ser rainha.
 
 

IV
Do batuque infernal, que não finda,
Turbilhona o fatal rodopio;
Mais veloz, mais veloz, mais ainda
Ferve a dança como um corrupio.

Mas eis que no mais quente da festa
Um rebenque estalando se ouviu,
Galopando através da floresta
Magro espectro sinistro surgiu

Hediondo esqueleto aos arrancos
Chocalhava nas abas da sela;
Era a Morte, que vinha de tranco
Amontada numa égua amarela.

O terrível rebenque zunindo
A nojenta canalha enxotava;
E à esquerda e à direita zurzindo
Com voz rouca desta arte bradava:

"Fora, fora! esqueletos poentos,
Lobisomes, e bruxas mirradas!
Para a cova esses ossos nojentos!
Para o inferno essas almas danadas!”

Um estouro rebenta nas selvas,
Que recendem com cheiro de enxofre;
E na terra por baixo das relvas
Toda a súcia sumiu-se de chofre.
 
 

V
E aos primeiros albores do dia
Nem ao menos se viam vestígios
Da nefanda, asquerosa folia,
Dessa noite de horrendos prodígios.

E nos ramos saltavam as aves
Gorjeando canoros queixumes,
E brincavam as auras suaves
Entre as flores colhendo perfumes.

E na sombra daquele arvoredo,
Que inda há pouco viu tantos horrores,
Passeando sozinha e sem medo
Linda virgem cismava de amores.
 
 

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O Elixir do Pajé
 
 
 

                         Que tens, caralho, que pesar te oprime
                         que assim te vejo murcho e cabisbaixo
                         sumido entre essa basta pentelheira,
                         mole, caindo pela perna abaixo?
 

                         Nessa postura merencória e triste
                         para trás tanto vergas o focinho,
                         que eu cuido vais beijar, lá no traseiro,
                         teu sórdido vizinho!

                         Que é feito desses tempos gloriosos
                         em que erguias as guelras inflamadas,
                         na barriga me dando de contínuo
                         tremendas cabeçadas?
 

                         Qual hidra furiosa, o colo alçando,
                         co'a sanguinosa crista açoita os mares,
                         e sustos derramando
                         por terras e por mares,
                         aqui e além atira mortais botes,
                         dando co'a cauda horríveis piparotes,
                         assim tu, ó caralho,
                         erguendo o teu vermelho cabeçalho,
                         faminto e arquejante,
                         dando em vão rabanadas pelo espaço,
                         pedias um cabaço!

                         Um cabaço! Que era este o único esforço,
                         única empresa digna de teus brios;
                         porque surradas conas e punhetas
                         são ilusões, são petas,
                         só dignas de caralhos doentios.
 

                         Quem extinguiu-te assim o entusiasmo?
                         Quem sepultou-te nesse vil marasmo?
                         Acaso pra teu tormento,


                         indefluxou-te algum esquentamento?
                         Ou em pívias estéreis te cansaste,
                         ficando reduzido a inútil traste?
                         Porventura do tempo a dextra irada
                         quebrou-te as forças, envergou-te o colo,
                         e assim deixou-te pálido e pendente,
                         olhando para o solo,
                         bem como inútil lâmpada apagada
                         entre duas colunas pendurada?

                         Caralho sem tensão é fruta chocha,
                         sem gosto nem cherume,
                         lingüiça com bolor, banana podre,
                         é lampião sem lume
                         teta que não dá leite,
                         balão sem gás, candeia sem azeite.
 

                         Porém não é tempo ainda
                         de esmorecer,
                         pois que teu mal ainda pode
                         alívio ter.

                         Sus, ó caralho meu, não desanimes,
                         que ainda novos combates e vitórias
                         e mil brilhantes glórias
                         a ti reserva o fornicante Marte,
                         que tudo vencer pode co'engenho e arte.
 

                         Eis um santo elixir miraculoso
                         que vem de longes terras,
                         transpondo montes, serras,
                         e a mim chegou por modo misterioso.

                         Um pajé sem tesão, um nigromante
                         das matas de Goiás,
                         sentindo-se incapaz
                         de bem cumprir a lei do matrimônio,
                         foi ter com o demônio,
                         a lhe pedir conselho
                         para dar-lhe vigor ao aparelho,
                         que já de encarquilhado,
                         de velho e de cansado,
                         quase se lhe sumia entre o pentelho.
                         À meia-noite, à luz da lua nova,
                         co'os manitós falando em uma cova,
                         compôs esta triaga
                         de plantas cabalísticas colhidas,
                         por sua próprias mãos às escondidas.

                         Esse velho pajé de pica mole,
                         com uma gota desse feitiço,
                         sentiu de novo renascer os brios
                         de seu velho chouriço!
 

                         E ao som das inúbias,
                         ao som do boré,
                         na taba ou na brenha,
                         deitado ou de pé,
                         no macho ou na fêmea
                         de noite ou de dia,
                         fodendo se via
                         o velho pajé!

                         Se acaso ecoando
                         na mata sombria,
                         medonho se ouvia
                         o som do boré
                         dizendo: "Guerreiros,
                         ó vinde ligeiros,
                         que à guerra vos chama
                         feroz aimoré",
                         - assim respondia
                         o velho pajé,
                         brandindo o caralho,
                         batendo co'o pé:
                         - Mas neste trabalho,
                         dizei, minha gente,
                         quem é mais valente,
                         mais forte quem é?
                         Quem vibra o marzapo
                         com mais valentia?
                         Quem conas enfia
                         com tanta destreza?
                         Quem fura cabaços
                         com mais gentileza?"
 

                         E ao som das inúbias,
                         ao som do boré,
                         na taba ou na brenha,
                         deitado ou de pé,
                         no macho ou na fêmea,
                         fodia o pajé.

                         Se a inúbia soando
                         por vales e outeiros,
                         à deusa sagrada
                         chamava os guerreiros,
                         de noite ou de dia,
                         ninguém jamais via
                         o velho pajé,
                         que sempre fodia
                         na taba na brenha,
                         no macho ou na fêmea,
                         deitando ou de pé,
                         e o duro marzapo,
                         que sempre fodia,
                         qual rijo tacape
                         a nada cedia!

                         Vassoura terrível
                         dos cus indianos,
                         por anos e anos,
                         fodendo passou,
                         levando de rojo
                         donzelas e putas,
                         no seio das grutas
                         fodendo acabou!
                         E com sua morte
                         milhares de gretas
                         fazendo punhetas
                         saudosas deixou...

                         Feliz caralho meu, exulta, exulta!
                         Tu que aos conos fizeste guerra viva,
                         e nas guerras de amor criaste calos,
                         eleva a fronte altiva;
                         em triunfo sacode hoje os badalos;
                         alimpa esse bolor, lava essa cara,
                         que a Deusa dos amores,
                         já pródiga em favores
                         hoje novos triunfos te prepara,
                         graças ao santo elixir
                         que herdei do pajé bandalho,
                         vai hoje ficar em pé
                         o meu cansado caralho!

Vinde, ó putas e donzelas,
vinde abrir as vossas pernas
ao meu tremendo marzapo,
que a todas, feias ou belas,
com caralhadas eternas
porei as cricas em trapo...
Graças ao santo elixir
que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé
o meu cansado caralho!
                         Sus, caralho! Este elixir
                         ao combate hoje tem chama
                         e de novo ardor te inflama
                         para as campanhas do amor!
                         Não mais ficará à-toa,
                         nesta indolência tamanha,
                         criando teias de aranha,
                         cobrindo-te de bolor...

                         Este elixir milagroso,
                         o maior mimo na terra,
                         em uma só gota encerra
                         quinze dias de tesão...
                         Do macróbio centenário
                         ao esquecido mazarpo,
                         que já mole como um trapo,
                         nas pernas balança em vão,
                         dá tal força e valentia
                         que só com uma estocada
                         põe a porta escancarada
                         do mais rebelde cabaço,
                         e pode em cento de fêmeas
                         foder de fio a pavio,
                         sem nunca sentir cansaço...

                         Eu te adoro, água divina,
                         santo elixir da tesão,
                         eu te dou meu coração,
                         eu te entrego a minha porra!
                         Faze que ela, sempre tesa,
                         e em tesão sempre crescendo,
                         sem cessar viva fodendo,
                         até que fodendo morra!

                         Sim, faze que este caralho,
                         por tua santa influência,
                         a todos vença em potência,
                         e, com gloriosos abonos,
                         seja logo proclamado,
                         vencedor de cem mil conos...
                         E seja em todas as rodas,
                         d'hoje em diante respeitado
                         como herói de cem mil fodas,
                         por seus heróicos trabalhos,
                         eleito rei dos caralhos!
 

Fonte: Bernardo Guimarães, Poesia  Erótica e Satírica.
            Imago, Rio de Janeiro, 1992.
           Literatura Brasileira em Meio Eletrônico
 
 

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