BRAULIO TAVARES
Braulio Tavares


Sai do Meio que lá vem o Filósofo (edição do autor, 1982)
 

CAIS DO CORPO
 

eles
que têm
uma mulher
em cada porto

elas
que têm
um homem
em cada navio

(quente é o cais do corpo,
quando o mar é frio)
 

OFÍCIO POÉTICO
 

escreva no corpo dela
         um poema
      com seu pau.

     faça um poema
       bem longo.

goze no ponto final.
 

POEMA DA BUCETA CABELUDA
 

A buceta de minha amada
tem pelos barrocos,
lúdicos, profanos.
É faminta
como o polígono das secas
e cheia de ritmos
como o recôncavo baiano.

A buceta de minha amada
é cabeluda
como um tapete persa.
É um buraco-negro
bem no meio do púbis
do universo.

A buceta de minha amada
é cabeluda,
misteriosa, sonâmbula.
É bela como uma letra grega:
é o alfa-e-ômega dos meus segredos,
é um delta ardente sob os meus dedos
e na minha língua
é lambda.

A buceta de minha amada
é um tesouro
é o Tosão de Ouro
é um tesão.
É cabeluda, e cabe, linda,
em minha mão.

A buceta de minha amada
me aperta dentro, de um tal jeito
que quase me morde;
e só não é mais cabeluda
do que as coisas que ela geme ao meu ouvido
quando a gente fode.
 



 
 

ESCRITO NO ESCURO
 

Entre as negras paredes desta furna
eu incrusto meu ser. Aqui sucumbo.
Minhas asas, meus olhos são de chumbo,
o meu corpo insensível é uma urna
que encarcera a tarântula noturna
do pavor ante o próximo minuto;
um negror de pupila alastra o luto
sobre as faces imóveis que me escutam
(sobre os bichos, que, ávidos, disputam
meus despojos de espectro prostituto).

Sempre isto, o Real: sempre o negrume
de uma noite implacável e absurda
onde a fauna das víboras chafurda:
esse pântano mau de fel e estrume.
Sempre isto, o que sonho: o ardente gume
das visões imbecis que arquiteturo,
pão de cinzas, trepada atrás do muro,
cem fogueiras de sal no corpo inútil,
gargalhada de onça, voz de bútio
que prediz o terror do meu futuro.

Meus delírios que as frases não capturam.
Meus lacraus cravejados-me na nuca.
Minha mente-armadilha, uma cumbuca
onde aranhas ferozes retorturam
símias mãos que se arriscam, se aventuram
a colher os seus grãos ou suas frutas.
Vê, Razão: peias rotas e corrutas
mal sustentam o monstro, ele é só músculos,
os seus berros abalam os crepúsculos
e despertam morcegos lá nas grutas.

(Eu sofreio-te as rédeas) Ah, Loucura,
tu não vês que sou eu que te conduzo?
(Mas não sou, sei que não, estou confuso,
sei que é ela quem manda.) Esta procura
de desvãos vulneráveis na estrutura
do meu ser é em vão. (Não é: me oculto
procurando fugir a cada vulto
que a esconde.) Desiste: não me curvo.
(Curvarei, sei que um dia, e estarei turvo,
ressurreto, remorto e ressepulto).

fonte de "Escrito no Escuro": Sépia Zine
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(do livro Balada do andarilho Ramón e outros textos, Ed. Pirata, Recife, 1980)
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