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CATULO DA PAIXÃO CEARENSE
Poeta, Músico e Cantor
Catulo da Paixão Cearense é o nome, por completo, deste que foi um excepcional poeta, brilhante compositor e intérprete, que durante décadas encantou platéias com sua música e hoje é apresentado, por capitu.com, neste dossiê.
Nortista, Catulo bem cedo pegou o violão e alçou vôo para a música. Estudou inicialmente no Conservatório Nacional de Música, como aluno de Alberto Nepomuceno, escola que, naquela época, era considerada o que havia de mais nobre, dali saindo para alcançar fama e prestígio entre os grandes compositores e poetas brasileiros.
Catulo, não era cearense, mas maranhense. Nasceu em São Luiz, a mui nobre e heróica Cidade de La Ravardière, no Estado do Maranhão, no sobrado n† 66, da antiga rua Grande, hoje Osvaldo Cruz, no dia 8 de outubro de 1863.
Filho de Amâncio José da Paixão Cearense (natural do Ceará) e de Maria Celestina Braga da Paixão (natural do Maranhão), Catulo, aos dez anos mudou-se para o sertão do Ceará e, aos 17 anos foi para Fortaleza.
Sua primeira modinha, "Ao Luar", foi escrita no ano de 1880. Até o auge da carreira, na Rádio Nacional do Rio de Janeiro com 'Luar do Sertão", trilhou um longo percurso.
O MARRUÊRO
O canto alegre dos galo
no sertão amiudava!...
Nos taquará das lagoa
as saracura cantava!...Cantando passava um bando
das verde maracanã!
Fermosa, cumo a cabôca,
Vinha rompendo a minhã!O vento manso da serra,
vinha acordando os caminho!...
Vinha das mata chêrosa
um chêro de passarinho!...Lá, no fundo d'uma grôta,
adonde um córgo gimia,
gragaiava as siriêma
cum o fresco nacê do dia.Uma araponga, atrepada
n'um braço de mato, im frô,
gritava, como se fosse
os grito da minha dô!!E a sabiá, lá nos gaio
da larangêra, serena,
cantava, cumo si fosse
uma viola de pena!Um passarinho inxirido,
mardosamente iscundido
nas fôia de um tamburí,
satisfeito, mangofando,
de mim se ria, gritando
lá de longe: "bem te vi"!Chegando na incruziada,
despois do dia rompê,
sipurtei o meu segredo
n'um véio tronco de ipê.Dênde essa hora, inté hoje,
eu conto as hora, a pená!...
Eu vórto a sê marruêro!
Vou vivê com os marruá!Eu tinha o corpo fechado
prá tudo o que é marvadez!
Só de surucucutinga
eu fui mordido três vez!...Dos marruaá mais bravio,
que nos grotão derribei,
munta pontada, sá dona,
munta chifrada eu levei.Prá riba de mim, Deus pode
mandá o que ele quizé!O mundo é grande, sá dona!...
Grande é o amô!...Grande é a fé!...Grande é o pud6e de Maria,
isposa de São José!...
O Diabo, também, sá dona,
foi grande!... Cumo inda é!!!Mas porém, nada é mais grande,
mais grande que Deus inté,
que uma cornada dos chifre
dos óio dúma muié...
(Meu Sertão, 1918, A Poesia Maranhense
no Século XX, Assis Brasil)
PRIMEIRO ATO
São Pedro
Que é isto?! Aqui? No céu?! Profanação!!
Boêmio
Senhor! Não repareis! É uma surpresa!
Venho, apenas, cantar, festivamente,
em vosso aniversário uma canção!
São Pedro
Mas na casa de Deus?!...E com um violão?!
Retire-se daqui!
Boêmio
Senhor, perdão!
Que havia de trazer-vos em um dia
tão grande, tão bonito, como o vosso,
de tanto amor, tanta recordação?!
Eu vos chamo, Senhor, vossa atenção.
Este instrumento representa a música,
esta flor, que colhi no mato virgem,
representa a formosa natureza,
os versos do meu canto representam
a divina poesia, e essa trindade
não merece, Senhor, vosso desdém!Pois Natureza, Música e Poesia
são as únicas coisas de sublime
que o mundo, de onde venho, em si contém.
Se eu venho tão somente com um violão,
é porque, desde que desencarnei,
desde hoje de manhã, desencarnado
vaguei por toda a terra, procurando
uns músicos, que, enfim, não encontrei,
para, enquanto fizésseis vossas preces,
como estáveis fazendo, agora mesmo,
oferecendo a Deus a vossa oblata,
entrássemos no Céu, com uma cantata,
com cavaquinhos, flautas e violões
acompanhando as vossas orações,
com uma bela e saudosa serenata.(Um Boêmio no Céu. 8a ed. 1966,A Poesia
Maranhense no Século XX, Assis Brasil)
Ao Luar
A Agripino GriecoVê que amenidade,
que serenidade
tem a noite, em meio,
quando, em brando enleio,
vem lenir o seio
de algum trovador!
O luar albente
que do bardo a mente
no silêncio exalta,
chora a tua falta
rutilante estrela
de eteral candor!
Minha lira geme
no concento extreme
que a Saudade inspira!
Vem ouvir a lira,
que, sem ti, delira
nesta solidão!
Vem ouvir meu canto
no fluir do pranto,
com que a dor rorejo!
Lacinante harpejo,
que das fibras tanjo
deste coração!
nosso amor fanado,
quando, eu, a teu lado,
mais que aventurado
por te amar vivi!
Quero a fronte tua
ver à luz da lua
resplandente e bela!
Descerra a janela
que eu durmo as noites,
só pensando em ti!
Dá-me um teu conforto,
que este afeto é morto
que me consagravas...
quando protestavas,
quando me juravas
eviterno amor!
Vem um só momento
dar ao pensamento
radiosa imagem
depois, na miragem,
deixa, eu tua ausência,
cruciar-me a dor!De saudade o dardo
vem ferir do bardo
o coração silente!
Esta dor latente
só na campa algente
poderá findar!
Mas se ainda o peito
palpitar no leito
de eternal abrigo,
hei de só, contigo,
sob a lousa, em sono
funeral, sonhar..Esta foi a primeira modinha escrita por Catulo, em 1880.
Foi publicada no livro: "Cancioneiro popular".
A Concha
A Valdemar Brito, Manuel Sobrinho e Hilton Raiol(Lendo Heredia)
Por quantos mares, sim, e por quantos invernos,
eu te pergunto sempre, ó concha nacarada,
a enchente, a vazante, a onda atribulada,
te hão rolado através de abismos seus eternos!?Longe do salso mar, sob estes céus mais ternos,
repousas nesta areia argêntea, refinada!
Mas em vão, porque escuto em tua voz magoada,
dentro de ti bramindo os líquidos avernos.Minha'alma assim tornou-se uma prisão sonora!
E como em ti palpita e canta e geme e chora
esse eterno estrebilho, essa canção do mar,Assim dentro em minha'alma, onde ela sempre existe,
surda, lenta, ofegante e sempre e sempre triste,
longínqua, a sua voz eu ouço murmurar.
Luar do Sertão
A Antonio Barnabé de Campos
Oh, que saudade do luar da minha terra
lá na serra, branquejando folhas secas pelo chão!
Este luar, cá da cidade, tão escuro,
Não tem aquela saudade do luar lá do sertão.
Não há, ó gente, oh não
luar, como esse do sertão (bis)
Se a lua nasce por detrás da verde mata,
mais parece um sol de prata, prateando a solidão!
E a gente pega na viola que ponteia,
e a canção é a lua cheia, a nos nascer do coração!
Não há, ó gente, oh não
luar, como esse do sertão (bis)
Quando, vermelha no sertão, desponta a lua,
dentro d'alma, onde flutua, também, rubra, nasce a dor!
E a lua sobe... E o sangue muda em claridade!...
E a nossa dor muda em saudade... branca... assim da mesma cor!!!
Não há, ó gente, oh não
luar, como esse do sertão (bis)
Ai quem me dera que eu morresse lá na serra,
Abraçado a minha terra, e dormindo de uma vez!
Ser enterrado numa grota pequenina,
onde a tarde, a sururina chora a sua viuvez!
Não há, ó gente, oh não
luar, como esse do sertão (bis)
Diz uma trova, que o sertão todo conhece,
que, se à noite o céu floresce, nos encanta e no seduz,
é porque rouba dos sertões as flores belas
com que faz essas estrelas lá do seu jardim de luz!!!
Não há, ó gente, oh não
luar, como esse do sertão (bis)
Mas como é lindo ver depois, por entre o mato
deslizar, calmo, o regato, transparente como um véu,
no leito azul das suas águas, murmurando,
ir, por sua vez roubando, as estrelas lá do céu!!!
Não há, ó gente, oh não
luar, como esse do sertão (bis)
A gente fria desta terra, sem poesia,
não se importa com esta lua, nem faz caso do luar!
Enquanto a onça, lá na verde capoeira,
leva uma hora inteira, vendo a lua, a meditar!
Não há, ó gente, oh não
luar, como esse do sertão (bis)
Coisa mais bela neste mundo não existe,
do que ouvir um galo triste, no sertão se faz luar!!!
Parece até que a alma da lua é que descanta,
escondida na garganta desse galo, a soluçar!
Não há, ó gente, oh não
luar, como esse do sertão (bis)
Se Deus me ouvisse com amor e caridade,
me faria esta vontade, - o ideal do coração!
Era que a morte a descantar, me surpreendesse,
e eu morresse numa noite de luar, no meu sertão!
Não há, ó gente, oh não
luar, como esse do sertão (bis)
A Lagoa(Poemeto de três setanejos)
À memória de Apolônia Pinto(fala Zé Mingáu, o amante desprezado)
Levei três mês incavando
uma cacimba bem funda
pra meu roçado moiá!
Mas porém, já tão cansado,
pru mais que a terra iscavasse,
não achei dagua siná!Há munto tempo, cabôca,
cum a inxada da minha mangua
eu cavo im teu coração,
seco, seco, sempe seco,
que não dá um pingo dagua,
nem um só, pru cumpaxão.Há munto tempo o roçado
já morreu isturricado,
já não sabe o que é pená!
E a minha dô inda cava
na cacimba do teu peito...
E cuntinua a cavá!!!(fala Mané Barriga de Sapo, um velho centenário, que ouviu o seu lamento amoroso.)
Zé Mingáu! Pruquê rézão
tu tá triste e jururú,
nem que fosse um bacuráu?!
A Fortunata Carú
te dexôu, te disprezou
pulo Chico Birimbau?!
Não te acagiba! Perdôa!
Não paga a pena chorá!
Tu não tá vendo a lagoa
daquela baxa? ... Aculá?!
Óia prô fundo das agua,
óia bem, que tu verá
a cara da tua cara
lá no fundo, a ti ispiá!
Fica sempre e sempre oiândo,
que a cara fica a ti oiá!!!
Mas tu saindo de lá,
eu juro pru São Jerôme
que tua cara se assôme,
que não fica sombra inté!!!
Aquilo que fez cuntigo,
ispeiando o teu sembrante,
faz cum todo caminhante,
o prêmêro que vinhé!!!
Apois aquela lagoa
é o coração da muié!!!(Fala Sebastiana Calunga, que ouviu os dois, sem ser vista. Indignada com um juízo do velho, rebelde conquistador, sujeito que ela, velha como ele, sabia ter amado e iludido muitas caboclas, que acreditaram nas juras e nos descantes de sua viola, - enfrenta-o e atira-lhe na cara esta reprimenda, sincera, justa e esmagadora.)
Zé Mingáu! Este fubeca
tá dizendo farsidade!
Toda a muié, quando peca,
não é pru sua vontade!
É pru via desse cabra,
que nos fere, sem piedade!
Esta hestóra da lagoa
não tá dentro da verdade!
Apois, se o hôme ispiasse
somente numa lagôa,
e junto dela ficasse
dia e noite, noite e dia,
de sintinela e de ispia,
eu juro prú Jesus Cristo
e a Santa Virge Maria,
que a cara do discarado
nunca mais de lá saia!!!
Mas se im todas as lagoa,
dagua limpa ou xavascá,
o hôme qué vê a cara,
o hôme qué ispiá...
Eu vou fechá minha boca,
pruquê, rapaz, tu bem sabe
adonde eu quero chegá.
JOÃO BRANCO NA CAPITAL
"Cumpade! Quanta mardade!
Cumade! Que farsidade!O Bêra d'Agua, O Aruêra,
o Pedro Caxinguelê
o Venâncio, o Zé Curinga,
a Mariquinha Sapê,
diz tanto verso bunito
e nunca prendeu a lê!Meu cumpade: a Natureza
uma carta de A.B.C.
A poesia dos doutô
dêsses poeta lá da Côrte
tá cheia de palavrão
umas porém não vele nada!...
É uma coisa atrapaiada!...
É uma atrapaiação.É verso só de cabeça!
Não é cumo os pés de verso
dêsses cabra d'aqui, não.
O vero aqui do sertão
é um bêja-frô que se sente
saí da bôca da gente,
cum as penunginha inda quente
do ninho do coração.Mas porém... Vamo ao triato
que o caso ainda não findoQuando o triato acabou,
im riba dum camarote
bateu as asa um frangote
um cara de bacuri,
prá dizê uma poesia
e'uma nusga sertaneja
com nome de Suveni.Ah, cumade! Ah ! meu cumpade!
Quando o amigo Dizidero
me disse que Suveni
era o mesmo que - Sodade-
eu não sei o que senti!Gritei cum todo o talento
que ele não dizesse os verso,
inquanto eu tivesse ali !!!
Que era im pouca vergonha!
Que eu era um home de idade,
e fio aqui no Brasil.
e nunca encontrei um cabra
que dizesse que Sodade
pudia sê - Suveni !!!Essa palavra fermosa
que minha mãe carinhosa
quando se foi pro mundo
n'um beijo deixou-me aqui!...
- Canai! - entonce gritei!
Fiz cum as mão um dizafôro!
Butei o chapéu de couro
e logo me arritirei !!
fonte: A Poesia Maranhense no Século XX, Assis Brasil)
Capitu