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Celso Borges
Celso Borges é maranhense de S. Luís onde nasceu em
maio de 1959. A partir do final dos anos 70, faz
parte dos principais movimentos de poesia que surgiram
na cidade: Arte e Vivência, Guarnicê e Akademia dos
Párias. Nos anos 80 lançou três livros: CANTANTO
(1981); NO INSTANTE DA CIDADE (1983) e PELO AVESSO
(1985) todos de poesia. A partir de1989 passa a
residir em S. Paulo, onde lança PERSONA NON GRATA
(1990) e NENHUMA DAS RESPOSTAS ANTERIORES (1997). Seu
projeto mais recente é o CD/Livro XXI com 40 poemas
de sua autoria na voz de 21 poetas maranhenses. O
trabalho, que será lançado ainda este ano, terá a
participação especial dos artistas Chico César, Nosly,
Rita Ribeiro e Zeca Baleiro.
LIVROS
NO INSTANTE DA CIDADE (1983)
no instante da cidade
estou para a cidade
como está seu instante para o meu coraçãodevagar às vezes
depressa quando o corpo comporta
atento enquanto o poema existirnunca somente o instante
nem só o coração atrevidonunca a cidade distante
nem eu no seu eu distraídosempre eu-cidade
instante-coraçãofeito sombra feito muralha
feito corte de navalhaa cidade é uma só
- completa -a cidade é uma só
- acesa -
- acesa -
- acesa -
no instante da cidade II
num primeiro instante - mesmo antes -
a cidade é uma pedra só
desguiada do meu propósitono momento seguinte
é um monumento
uma fotografia de álbum
estática irrreversível
do tamanho - por exemplo - de meu coraçãono instante do homem
é um bloco infértil
um robot
do tamanho dela mesmano instante da máquina
é um túmulo
ou se você quiser
um campo de concentração
Amor
Como padece o amor
- frágil -
como padece entre as rameiras
entre o chão e as esteiras de toda a vida
como padece feito pedra desgastada pela correnteza
como padece a vida do dia-a-dia
a vida e as esporas rastejantes- o amor
objeto da cidade em movimento
PELO AVESSO (1985)
pária
somos poucos
cada vez menossomos loucos
cada vez maissomos além
dessa matéria óbvia
que nos faz dizer
- tá tudo bem.
aviso prévio
está definido.
não te farei mais poemas de amor.
todos os recursos foram gastos
poemas y poemas
lábios inúteis no papel.com nenhum deles compraste uma bisnaga na padaria
pagaste a conta de luz
o antibiótico para minha faringite.está definido.
já não marco encontro com as coisas imprecisas.do meu coração te demito.
vício
que seja de vício a mão
antes e depois do poemao cigarro
aceso ou inútil
a boca vestida de desejo
fora e dentro de seu rompimentoo vício
que seja o próprio corpo
e o que nele é roto e falho
a ânsia das coisas dobradas em pânicoos lábios
a saliva e o que lhe sobra de seco
que seja de vício a totalidade das coisas
a palavra e seu minério
o papel e seu suporte
o poema desdobrado em fatias plenas.
PERSONA NON GRATA (1990)
vampiro
nós feras
a lua na sarjeta é tua ferida nua
tua ferida é nua
era
um dente na noite feroz
na veia
eros
um simples desejo sobre o pescoço
o sangue em humana vadiação
punk
a pomba da paz não quer mais migalhas
todos os atos são a partir de agora
instrumentos de força e vício
There is no future
declaro findo os elementos de cortesia
nenhuma concessão de praça ou perdão
na palma da mão napalm
eis a urgência da estética de guerraminha vida sem saída em edgar alan poe
curvo o corpo
eu corvo canto
meu vazio hardcore
eu corvo maldito
never more
NENHUMA DAS RESPOSTAS ANTERIORES (1997)
BLACKOUT
se no clsro o powma jã é doficil
imagins no ezcurp
natureza viva
a fruta cai do galho
não tem prato embaixo
não tem mesa
não tem chãoinvento a fruta amassada
em
pleno
vôo
discriminação
niggers um após o outro vários
spics além de
jews cada vez mais
mobsters podiam ser menos
wasps entre tantos
white trashes em excesso inúmeros ou quase
baianos a perder de vista inclusive
cucarachas centenas deles ainda assim
japas aos montes já é demais
turcos
paraíbas e
assim por diante
haroldiana
de fato uma fada faz parte de uma história malcontada
de um conto do vigário fadado a ter seu fim otáriode fato uma fada é uma falácia
uma flor a mais do lácio despetalada
um sino no exílio um idílio
por quem os signos dobram em delíriode fato tudo é tudo
quase nada
noves fora fada
matadouro
A BABA DO BOI É DO BOI
O BERRO DO BOI É DO BOI
A DOR DO BOI É DO BOI
A MORTE DO BOI É DO BOIMAS O BOI NÃO É DO BOI
O CARRO DE BOI NÃO É DO BOI
A BOSTA DE BOI NÃO É DO BOI
A LÍNGUA DE BOI NÃO É DO BOI
A COSTELA DE BOI NÃO É DO BOI
O CHIFRE DE BOI NÃO É DO BOI
O COURO DE BOI NÃO É DO BOI
A CARNE DE BOI NÃO É DO BOINÃO É DO BOI O BUMBA-MEU-BOI
QUASE NADA DO BOI É DO BOI
QUASE TUDO DO BOI É DO HOMEM
E O QUE É DO HOMEM O BICHO NÃO COME