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Samuel Taylor ColeridgeA Balada do Velho Marinheiro. partes I, II, III
Como um Navio, tendo atravessado o Equador, foi impelido por tempestades à fria Terra a caminho do Pólo Sul; e como de lá fez seu trajeto para a Latitude tropical do Grande Oceano Pacífico; e das coisas estranhas que aconteceram; e de que modo o Velho Marinheiro retornou a seu próprio País.
Um velho marinheiro encontra três Galantes convidados a uma festa nupcial, e detém um.
O convidado Nupcial é enfeitiçado pelo olhar do velho homem do mar, e é obrigado a ouvir sua história.
O Marinheiro conta como o navio velejou para o sul com vento favorável e bom tempo, até alcaçar o Equador.
O convidado ouve a música nupcial, mas o Marinheiro continua sua narrativa.
O navio impelido por uma tempestade rumo ao pólo sul.
A terra do gelo e de sons terríveis onde nenhum ser vivo se podia ver.
Até que uma grande ave marinha, chamada Albatroz, veio entre a névoa, e foi recebida com grande alegria e hospitalidade.
E eis que o Albatroz se revela uma ave de bom augúrio, e segue o navio em seu retorno para o norte em meio à neblina e ao gelo flutuante.
O Velho Marinheiro inospitaleiramente mata a ave de bom augúrio.
PARTE I
É um velho Marinheiro,
E detém um, de três que vê:
- "Por tua barba branca e cintilante olhar,
Tu me deténs por quê?Agora o noivo escancarou as suas portas,
E eu sou seu familiar.
O comensal se apresta, principia a festa;
Ouve o alegre exultar."Com a escarnada mão ele o detém ainda;
"Houve um navio..."lhe disse.
"Solta-me! Solta-me barbado vagabundo!"
Deixou que a mão caísse.Com o olho cintilante ele o detém agora...
E, quieto, o Convidado
Fica a escutar, como criança de três anos,
Pelo outro dominado.O convidado vai sentar-se numa pedra:
Vê-se forçado a ouvir;
E sua fala prossegue o Marinheiro antigo
De olhar a refulgir."O navio foi saudado, o porto evacuado;
Equipagem radiante,
Passamos sob a igreja, sob o promontório,
Sob o farol adiante.À nossa esquerda então o sol se levantava,
Do mar a se elevar;
Era um claro esplendor... Depois ia se pôr
À direita no mar.Sempre, sempre mais alto, até que sobre o mastro
Pairava ao meio-dia..."
O ouvinte contrafeito aqui bateu no peito:
O alto fagote ouvia.Agora a noiva já ingressara no salão,
Rubor rosa tem;
A inclinar as cabeças, menestréis alegres
À sua frente vêm.O ouvinte contrafeito aqui bateu no peito,
Mas é forçado a ouvir;
E sua fala prossegue o Marinheiro antigo
De olhar a refulgir."E eis que colheu os navegantes a borrasca,
Tirânica e violenta;
Veio nas asas da surpresa, e nosso barco
Para o sul afugenta.Pendiam os seus mastros, mergulhava a proa...
Como quem, a dar gritos e golpes cm perigo,
Persegue e pisa a sombra do inimigo,
Curva à frente a cabeça,
O barco assim se evade; e ruge a tempestade
Que ao sul nos arremessa.E de repente nos envolvem névoa e neve,
Com um frio assassino;
E, alto de um mastro ao vê-lo, flutuava gelo
De um verde esmeraldino.E, entre os blocos errantes, penhas alvejantes
Dão espectral fulgor;
Homens não vemos e animais que conhecemos...
Só há gelo ao redor.O gelo estava aqui, o gelo estava ali,
Só gelo no lugar;
E rangia e rosnava, e rugia e ululava,
- Os sons de um desmaiar.Enfim passou por nós, bem no alto, um Albatroz,
Vindo da cerração;
Em nome do Senhor nós o saudamos, como
se fosse outro cristão.Comeu o que jamais comera, e lá na altura
Volteava sobranceiro;
Rompeu-se o gelo então co'o estrondo de um trovão...
Passou o timoneiro!E do sul um bom vento nos soprava alento;
O Albatroz nos seguia,
E à nossa saudação, por fome ou diversão,
Buscava todo dia!Em névoa ou nuvem vem, no mastro ou no ovém,
Por vésperas nove pousar;
Enquanto a noite inteira, em bruma alva e ligeira,
Luzia o alvo luar.""Velho Marujo! Deus te salve dos demônios
Que de ti vão empós...
Que olhar! Que te molesta?" Com a minha besta
Eu matei o Albatroz.
Seus companheiros de bordo protestam contra o velho Marinheiro, por matar a ave da sorte.
Mas quando a neblina se ergueu eles o justificam, tornando-se assim, eles próprios, cúmplices do crime.
O vento brando continua; o navio entra no Oceano Pacífico, e veleja rumo ao norte, até alcaçar o Equador.
O navio foi subitamente imobilizado.
E o Albatroz começa a ser vingado.
Um Espírito os havia seguido, um dos habitantes invisíveis deste planeta, não almas que se foram nem anjos; a seu respeito, o erudito judeu Josefo e o constantinopolitano platônico Miguel Psellus podem ser consultados. São muito numerosos, e não há terra ou elemento sem um ou mais.
Os companheiros, em sua dolorosa aflição, desejavam lançar a culpa toda sobre o velho Marinheiro; como indício de tal coisa, penduraram a ave marinha morta em seu pescoço.
PARTE II
Pela direita agora o Sol se levantava:
Do mar a se elevar
Ainda em meio à bruma; e adiante, à nossa esquerda,
Deitava-se no mar.E do sul o bom vento nos soprava alento...
Mas ave não se via
Que à nossa saudação, por fome ou diversão,
Acorresse algum dia!E meu ato infernal traria para todos
A desgraça improvisa,
Pois, para toda a nave, eu fora a morte da ave
Que faz soprar a brisa.Glorioso o Sol surgiu, nem rubro nem sombrio,
Tal qual fonte divina;
E, para toda a nave, eu fora a morte da ave
Que traz névoa e neblina.
Justo era, em seu pensar, tal pássaro matar
Que traz névoa e neblina.A branda brisa arfava, a espuma alva voava,
E o sulco solto a esfiar...
Jamais humana voz soara antes de nós
Naquele mudo mar.E o vento cede, as velas cedem... Quem iria
Tristeza mais triste encontrar?
E nós falávamos tão-só para romper
O silêncio do mar!E num ardente céu de cobre, ao meio dia,
Em sangue o sol flutua,
Pairando bem em cima do alto mastro,
Não maior do que a Lua.Dia após dia, o barco ali, dia após dia,
Sem sopro, ali, cravado;
Ocioso qual uma pintada embarcação
Num oceano pintado.Água, água, quanta água em toda a parte,
E a madeira a encolher;
Água, água, quanta água em toda a parte,
Sem gota que beber.O próprio abismo apodrecia... Como, ó Cristo,
Aquilo foi se dar?
Coisas viscosas e com pernas rastejavam
Sobre o viscoso mar.Sant'Elmo urdia à noite um coriscar de açoite,
Turbilhão e tropel;
A água - um óleo de bruxa - verde, azul e branca
Ardia sob o céu.E alguns em sonhos garantiam ver o Espírito
Que atormentar nos deve;
Nove braças ao fundo, havia nos seguido
Do lar de névoa e neve.O calor e a aridez tinham secado a língua,
Que até a raiz afligem;
E não podíamos falar, como se a nós
Sufocasse a fuligem.Ah! Então - ai de mim! - que olhares mais terríveis
Tive de velho e moço!
Como cruz para o algoz, ataram o Albatroz
Em torno a meu pescoço.
O velho Marinheiro avista um sinal ao longe no elemento.
Com sua maior aproximação, parece-lhe ser um navio; e a duras penas ele liberta sua fala dos grilhões da sede.
Um lampejo de júbilo;
E segue-se o horror. Pois pode ser um navio o que avança sem vento ou correnteza?
Parece-lhe apenas o esqueleto de um navio.
E suas balizas são vistas como barras sobre a face do sol poente.
A Mulher-espectro e sua companheira Morte, e ninguém mais a bordo do navio esqueleto.
Tal nave, tal tripulação!
A Morte e a Vida-em morte disputam nos dados a tripulação do navio, e ela (a última) conquista o velho Marinheiro.
Nenhum crepúsculo nas cortes do Sol.
Ao levantar-se a Lua,
Um após o outro,
Seus companheiros tombaram mortos.
Mas a Vida-em-Morte começa a trabalhar o velho Marinheiro.
PARTE III
Um tempo de cansaço! A seca na garganta,
No olhar vidrado um véu.
Cansaço! E que luzir em cada olhar vidrado,
Cansado atrás de um véu.
Quando eis que de repente, os olhos no poente,
Eu vi algo no céu.De início parecia uma pequena mancha,
E depois uma bruma!
Avançava e avançava, até que certa forma
Ele tomou, em suma.Uma mancha, uma bruma, certa forma, em suma!
E sempre, sempre avança...
Como a esquivar-se de um espírito marinho,
Mergulha e vira e dança.Com garganta insaciada, a boca negra assada
Riso e pranto cancela;
Nessa aridez, ante a equipagem muda e langue,
O meu braço mordi, suguei o próprio sangue,
E gritei: Uma vela!Com a garganta insaciada e boca negra assada,
Atônitos parecem;
Graças a Deus! exclamam; riem, riem bastante...
E todos tomam fôlego naquele instante,
Como se eles bebessem.Vede! Vede! (Gritei) - Não mais vacila! Vem
Salvar-nos certamente;
Navega firme com a quilha levantada,
Sem vento, sem corrente!Agora o oceano no ocidente era um incêndio:
A tarde no arrebol!
Quase pousara sobre o oceano no ocidente
Largo e luzente o Sol;
Foi quando aquela forma estranha se interpôs
Justo entre nós e o Sol.E com barras o Sol logo ficou listrado
(Ó Mãe do Céu, socorre o crente!);
Parecia espiar por grades de masmorra,
Com rosto enorme e ardente.Ai de mim! (eu pensei, e o peito martelava)
O espaço, como ganha!
Seriam suas velas o que ao sol cintila
Como teias de aranha?O arcabouço talvez - que encerra a luz do Sol
Em grades de madeira?
Seria essa Mulher sua tripulação?
Ela seria a MORTE? Ou ambas que lá estão?
A MORTE é a companheira?Seus lábios eram rubros; seu olhar, lascivo;
Sua trança, auri-amarela;
Sua pele, como a lepra, era de um branco forte;
Ela era o próprio Pesadelo VIDA-EM-MORTE,
Que o sangue humano gela.Chegou a nua carcassa; e o par, a jogar dados,
fazia desafios;
"É o fim do jogo!" a Mulher diz, "Ganhei! Ganhei!"
E dá três assobios.A orla do sol mergulha; fogem as estrelas:
É escuridão total.
Num sussurrar distante, sobre o mar dispara
O navio espectral.Tudo ao redor o ouvido escuta o e olhar perpassa!
Meu sangue vital sorve, como numa taça,
Em meu peito o temor!
Apagam-se as estrelas, densa é a escuridão;
Lívida a face do piloto à luz junto ao timão!
Nas velas o orvalho é um suor...
Até que a Lua sobe ao longe no oriente,
Nos cornos envolvendo estrela refulgente
Junto à porta inferior.Um por um, pela Lua que os astros acuam,
Sem tempo de gemer ou suspirar,
Todos viram-me o rosto, com horrenda angústia
E maldição no olhar.Quatro vezes cinquenta a soma de homens vivos
Que, sem suspiro e sem gemido algum,
Com um baque pesado, quais massas inertes,
Caíram um por um.Suas almas voaram... para a danação,
Ou para a eterna paz.
E essas almas silvavam, ao passar por mim,
Qual minha seta o faz.
fonte: Porão
Sépia Zine