coleridge4
Samuel Taylor Coleridge

Cristabel
 

É meia noite no relógio do castelo
E as corujas despertaram o galo que canta
Hu-huuu... Hu-huuu...!
E escute, novamente, o galo que canta,
Meio sonado ele ainda canta.
 

Meu senhor Leonino, o rico barão,
Tem uma cadela, um mastim sem dentes;
E ela, de seu antro sob a rocha,
Responde ao relógio,
Quatro latidos breves a cada hora em ponto;
Invariavelmente, faça chuva ou faça sol,
Dezesseis latidos breves, não muito fortes;
E dizem que ela vê a mortalha de minha senhora.
 

A noite está fria e sombria?
Está fria, mas não obscura demais.
Uma nuvem cinzenta se estende no céu,
Cobrindo o céu sem ocultá-lo.
Atrás dela está a lua, plenamente cheia;
Que, entretanto, parece pequena e pálida.
A noite é gelada, a nuvem cinzenta;
Ainda falta um mês para maio,
E a primavera chega lentamente nestas regiões.
 

A bela dama Cristabel,
Tão amada por seu pai,
O que ela faz tão tarde na floresta,
A duzentos passos da porta do castelo?
Ontem sonhou a noite inteira
Com o cavalheiro para o qual está prometida;
E quer rezar no bosque à meia noite
Pela saúde do amado que está tão distante.
 

Ela vagava, e nada dizia,
Seus suspiros eram doces e silenciosos,
E não havia nada de verde no carvalho
Exceto musgo e um pouco de visco,
Ela se ajoelha diante do enorme carvalho
E reza silenciosamente.
 

A dama se levanta de repente,
A bela dama Cristabel!
Algo suspira bem perto dali, bem perto,
Mas ela não pode dizer o que seja -
Parece estar do outro lado,
Do gigantesco, frondoso e idoso carvalho.
 

Fria é a noite, e nua a floresta;
Será o vento quem geme tão triste?
Mas não há no ar vento suficiente
Nem para mover as madeixas cacheadas!
Na face da bela dama -
 

Não há suficiente vento nem para agitar
A única folha vermelha, derradeira de sua estirpe,
Que baila ao mais frágil impulso,
Suspensa no alto, tão levemente,
No último ramo que contempla o céu.
 

Shhh, coração palpitante de Cristabel!
Jesus e Maria a protejam-na bem!
Ela cruzou seus braços sob o manto
E deslizou para o outro lado do carvalho.
O que ela vê lá?
 

Vê uma donzela resplandecente,
Vestida com uma túnica branca de seda
Que, obscurecida, brilha ao luar:
Seu pescoço, que envergonha a brancura do vestido,
Seu pescoço suave e seus braços estavam desnudos;
Os pés, percorridos por veias azuis, estavam descalços,
E aqui e ali brilhavam, ofuscantes
As gemas preciosas que adornavam seus cabelos.
Te asseguro que era assustador contemplar ali
Uma dama tão ricamente vestida -
Bela, muito além de qualquer descrição!
 

Santa Maria, me ajude!
(Disse Cristabel) Quem é você?
 

A estranha dama respondeu,
E sua voz era doce e suave: -
Tenha compaixão de minha desgraça cruel,
Mal posso falar de tão cansada que estou:
Estenda-me sua mão, e nada tema!
Disse Cristabel, Como você chegou aqui?
E a dama, cuja voz era doce e suave,
Prosseguiu deste modo em resposta: -
 

Meu pai e senhor é de ascendência nobre,
E meu nome é Geraldine:
Cinco guerreiros me raptaram ao amanhecer,
A mim, pobre donzela indefesa:
Calaram meus brados com a força e o temor,
E me ataram a um palafrém branco.
O palafrém era ligeiro como o vento,
E eles me seguiram em galope furioso.
 

Eles cravaram suas esporas sem descanso em seus brancos ginetes:
E cruzamos assim as sombras da noite.
E certamente, assim como o Céu há de me resgatar,
Te asseguro que não sei quem eram aqueles homens;
Nem sei tampouco quanto tempo passou
(Pois acho que devo ter desmaiado)
Desde que um deles, o mais alto dos cinco,
Me apeou do palafrém branco,
Uma mulher esgotada, quase morta.
Seus camaradas murmuraram algumas palavras:
Ele me colocou sob este carvalho;
Ele jurou que retornaria sem demora;
Não sei dizer aonde foram -
Acho que ouvi, minutos atrás,
O som de um sino de castelo.
Estende tua mão (concluiu ela)
E ajude uma donzela em desgraça a fugir.
 

Então Cristabel estendeu sua mão,
E confortou a doce Geraldine:
Oh bela dama! Poderias ordenar
Os serviços de Dom Leonino;
E alegremente nossos bravos cavaleiros
Serão enviados, e amigos também
Para guiar-te e conduzir-te segura e em liberdade
Para casa, a morada de teu nobre pai.
 

Levantou-se: caminhou com passos
Que tentavam ser, mas não eram, rápidos.
A dama abençoou sua estrela afortunada,
E assim disse a doce Cristabel:
Todos no castelo descansam,
O salão está silencioso como uma cela;
Dom Leonino tem a saúde frágil,
E não é bom despertá-lo,
Mas entraremos furtivamente,
E suplico a cortesia vossa,
De que compartilhe meu leito esta noite.
 

Elas cruzaram o fôsso, e Cristabel
Pegou a chave bem ajustada;
Abriu prontamente uma porta pequenina,
Bem ao meio do portão;
O portão era revestido de aço por dentro e por fora,
E por ele poderia passar um exército em formação de batalha.
A dama desfaleceu, como se estivesse tomada pela dor,
E Cristabel com dificuldade
Ergueu-a, um peso morto,
Sob o umbral do portão:
Então a dama levantou-se novamente,
E moveu-se, como se não estivesse padecendo de dor.
 

Então, livres do perigo, livres do medo,
Elas atravessaram o pátio com alegria.
E Cristabel falou com devoção
Para a dama ao seu lado,
Louvemos a divina Virgem
Que te resgatou da aflição!
Ai de mim, ai de mim! disse Geraldine,
Estou tão cansada que mal posso falar.
Livres do perigo, livres do medo,
Elas atravessaram o pátio com alegria.
 

Fora do canil, o velho mastim
Dormia profundamente, sob a luz fria da lua.
O velho mastim não despertou,
Porém lançou um gemido angustiado!
O que pode estar atormentando a cadela mastim?
Ela jamais havia gemido antes na presença de Cristabel.
Tavez seja o pio da coruja:
O que mais poderia atormentar a cadela mastim?
 

Elas atravessaram o grande salão, que ecoava
Apesar da leveza de seus passos!
As brasas estavam amassadas, estavam morrendo,
Em meio a suas próprias cinzas brancas;
Mas quando a dama passou, surgiu
Uma língua de luz, um ressurgir da chama;
E Cristabel contemplou os olhos da dama,
E depois disto nada mais viu
Exceto o vulto do escudo do alto Dom Leonino,
Que se alojava num obscuro e antigo nicho na parede.
Oh! Caminhe com cuidado, disse Cristabel,
Pois meu pai raramente dorme bem.
 

A doce Cristabel descalça seus pés,
E, temerosas diante dos ruídos
Elas rumam, degrau a degrau,
Hora na luz, hora na escuridão,
Passando diante do quarto do barão,
Quietas como a morte, a respiração suspensa!
Elas alcançam a porta do quarto,
E Geraldine pressiona com os pés,
As pedras do piso.
 

A lua brilha palidamente lá fora,
E nenhum de seus raios entra aqui.
Mas mesmo sem sua luz elas podem ver
A alcova, tão curiosamente talhada,
Talhada com figuras estranhas e doces,
Nascidas da mente do carpinteiro,
Especialmente para o quarto de uma dama:
A lamparina com uma dupla corrente de prata
Atada aos pés de um anjo.
 

A lamparina de prata brilha, débil e quase morta;
Mas Cristabel a reanimará.
Ela atiçou a lamparina, fazendo-a brilhar,
Deixando-a vaguear, para cá e para lá,
Enquanto Geraldine, em angústia infeliz,
Desfaleceu sobre o piso.
 

Oh, fatigada dama Geraldine,
Eu rogo a ti, beba este licor!
É um licor de poderes virtuosos;
Feito por minha mãe com flores selvagens.
 

E sua mãe se apiedará de mim?
Da mais desafortunada das donzelas?
Cristabel respondeu - Pobre de mim!
Ela morreu no momento em que nasci.
Eu ouvi o frade de cabelos brancos dizer,
Que em seu leito de morte ela falou,
Que ouviria o sino do castelo
Tocar doze vezes no dia de meu casamento.
Oh, querida mãe! Quem me dera se tu estivesses aqui!
Eu gostaria, disse Geraldine, que ela estivesse!
 

Mas logo em seguida disse, com a voz alterada -
"Fora, mãe errante! Fora daqui!
Eu tenho poderes para ordenar que saias."
Ai de mim! o que atormenta a pobre Geraldine?
O que ela fita com olhos tão turvos?
Poderá ela contemplar os espíritos incorpóreos?
E por que ela grita com a voz trêmula,
"Fora, mulher; saia! Agora é minha vez -
Apesar de tu seres seu espírito guardião,
Fora, mulher; saia! Ela foi concedida a mim."
 

Então Cristabel ajoelhou-se ao lado da dama,
E ergueu ao céu seus olhos azuis -
Ai de mim! disse, esta cavalgada terrível -
Querida dama, tornou-te selvagem!
A dama passou sua mão sobre a fronte húmida e fria,
E murmurou, "agora já passou!"
 

Ela sorveu novamente o licor de flores selvagens:
Seus belos olhos azuis começarama a brilhar intensamente,
E do solo onde havia caído,
A dama se elevou:
Ela era uma visão deliciosa,
Como uma dama de terras distantes e remotas.
 

E assim falou a nobre dama -
"Todos os que habitam os céus altíssimos,
Te amam, bendita Cristabel!
Assim como você os ama, e em consideração a eles
E pelo bem que me fizestes,
No que for possível irei tentar,
Bela donzela, recompensar-te bem.
Mas agora dispa-se; pois eu
Devo rezar, antes de me deitar."
 

Disse cristabel, Então que assim seja!
E como a dama pediu ela fez,
Despiu seus belos membros
E estendeu-se no leito em toda sua beleza.
 

Porém, em sua mente agitavam-se tantos
Pensamentos de tristeza e desgraça,
Que em vão ela tentava cerrar as pálpebras;
Assim, elevou-se na cama,
E apoiou-se no cotovelo
Para olhar a dama Geraldine.
 

Sob a lâmpada a dama se inclinou,
E moveu seus olhos lentamente ao redor;
Então, tomando alento num suspiro alto,
Estremecendo, desatou
A cinta sob seus seios:
O traje de seda, sua roupa de baixo,
Caiu a seus pés, e mostrou-se plenamente,
Contempla! seus seios e parte das costas -
Uma visão para ser sonhada, e não descrita!
Oh, proteja-a! proteja a doce Cristabel!
 

Contudo Geraldine não fala ou se move;
Ah! que aspecto afligido era o seu!
Desde o seu eu mais profundo ela parece a ponto
De elevar um peso com esforço doentio,
Contempla a donzela e busca ganhar tempo;
Então, de repente, como num desafio,
Contém-se convencida e orgulhosa
E deita-se junto à donzela! -
E tomou em seus braços a jovem
Ah, que dia desgraçado
E em voz baixa e olhar doloroso
Ela disse estas palavras:
 

"No contato com este peito reside um feitiço,
Que é senhor de tuas palavras, Cristabel!
Esta noite conheces, e saberás amanhã,
Esta marca de minha vergonha, este selo de minha tristeza;
Mas foi vã sua luta
Pois só reside em ti
O poder de declarar,
Que na floresta obscura
Escutastes um supiro baixo
E encontrastes uma donzela resplandecente; demasiado bela;
E troxeste-a para casa contigo com amor e caridade,
Para abrigá-la e protegê-la do sereno da noite."
 

CONCLUSÃO DA PARTE I

Era uma delícia contemplar
A dama Cristabel, quando ela
Estava rezando ao pé do velho carvalho.
Em meio às sombras esparsas
Dos ramos desnudos e cheios de musgo,
Ajoelhada à luz da lua
Para fazer seus votos ternos;
Com suas mãos elegantes unidas,
Movendo-se às vezes em direção aos seios;
Sua face resignada diante da alegria e da tristeza -
Sua face, oh, chamem-na bela, não pálida,
E os olhos azuis mais brilhantes que claros,
Ambos a ponto de destilar uma lágrima.
Com os olhos abertos (ai de mim!)
Adormecida, sonhando temores,
Sonhando temores, e, certamente sei
Sonhando com aquilo, com -
Oh tristeza e vergonha! Poderá ser esta,
A dama, que se ajoelhava ao pé do velho carvalho?
E veja! a autora destes males,
Que contém a donzela em seus braços,
Parece repousar doce e tranquila,
Como uma mãe com seu filhinho.
 

Uma estrela se ocultou, outra estrela surgiu
Oh, Geraldine! desde que teus braços
Tornaram-se a prisão da dama.
Oh, Geraldine! uma hora foi tua -
Tu satifizestes teu desejo! Junto aos lagos e arroios,
Os pássaros noturnos estiveram calados nesta hora.
Mas agora eles se regozijam novamente,
Em torres e encostas, u-hú! u-hú!
U-hú! u-hú! em bosques e colinas
 

E vêde! A dama Cristabel,
Retorna de seu transe;
Seus membros se relaxam, e sua face
Torna-se doce e triste; as pálpebras finas e lisas
Fecham-se sobre seus olhos; e derramam lágrimas -
Grandes lágrimas que tornam brilhantes as pestanas!
E entrementes parece sorrir
Como os bebês ante a luz repentina!
 

Sim, ela sorri e chora,
Como jovem ermitã,
Bela no deserto selvagem
Que, rezando sempre, reza em seus sonhos.
E, se ela se move inquieta,
Talvez seja o sangue que flui
Retornando e palpitando em seus pés.
 

Sem dúvida é doce o seu sono.
Talvez seja seu espírito guardião,
Talvez saiba que sua mãe está por perto
Porém ela sabe, na alegria e na tristeza,
Que os santos ajudam os homens que os chamam:
Pois o céu azul se inclina sobre todos!

(1797)

* * *
Traduzido por Orlando Ferreira
Do original em língua inglesa;
Não sem o auxílio da tradução espanhola de
A. Sarabia Santander.
In: La Rima del Viejo Navegante y otros poemas
Barcelona, Bosch, 1983.

fonte: Sépia Zine
          Porão

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