FERNANDO ABREU
Fernando Abreu


Relatos do Escambau (ed. 1998)
 

Assim também não
 

naqueles dias
quando eu só falava poesia
quase tudo me mandava ir

eu ia

fazia frio mas o frio não fazia

essa dicotomia
de querer noite
ao sol do meio-dia
 

RÉQUIEM PARA MALONE
(OU BECKETT RIDES AGAIN)
 

E daí,
se Malone Morre?
tinha mesmo que acontecer
morrer sempre foi
o seu forte,
sua razão de viver

Tinha um talento inato
para o que já não há
sempre um cara meio ausente
mesmo sem ser doente
vivia mais pra lá

do que pra cá.

Foi um baque
um saque, um lance de doido
mas no fundo – há que se diga –

finalmente morto,
ele que se toque
e vá cuidar da vida.
 

ORAÇÃO PELA AMNÉSIA
 

talvez
o que me escape
seja o que mais salte
                      em mim
sabe lá
se o que eu não veja
reze pelos meus cantos
                             assim seja
portanto
o que me fuja da memória
à revelia
                  revele minha história

que nem eu saiba mais enfim
se sou eu que ando por aí
em carne osso coração e mente
ou se é meu fantasma demente
rindo de todo mundo
                         e de mim
 


poesia