FERREIRA GULLAR
Ferreira Gullar

Ferreira Gullar (José Ribamar Ferreira) nasceu em São Luís, Maranhão, em 1930. Um dos fundadores do Grupo Opinião, escreveu com Vianninha, em 1966, a peça "Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come". Com uma poesia cada vez mais engajada, filiado ao Partido Comunista, o poeta é preso em 1968 quando da assinatura do Ato Institucional nº. 5.  Em 1971 parte para o exílio.  Seu filho Marcos falece em 1990 e sua mulher, a atriz Thereza Aragão, em 1993.  Entre suas obras destacamos: "Um Pouco Acima do Chão", 1949, "Luta Corporal", 1954, "Poemas", 1958, "Dentro da Noite Veloz", 1975, "Poema Sujo", 1976, "A Estranha Vida Banal", 1990, "Cidades Inventadas", "Rabo de Foguete - Os Anos de Exílio", e "Muitas Vozes", 1999 — ganhador do Prêmio Jabuti — 

POEMA SUJO
1a parte
2a parte


 

LIÇÃO DE UM GATO SIAMÊS
 

Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
      finita
      da minha precariedade

O tempo fora
de mim
            é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
– dura eternamente
   enquanto vivo

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)
 


DEFINIÇÃO DA MOÇA
 

Como defini-la
quando está vestida
se ela me desbunda
como se despida?

Como defini-la
quando está desnuda
se ela é viagem
como toda nuvem?

Como desnudá-la
quando está vestida
se está mais despida
do quando nua?

como possuí-la
quando está desnuda
se ela é toda chuva?
se ela é toda vulva?
 


UM INSTANTE
 

Aqui me tenho
como não me conhecço
          nem me quis

sem começo
nem fim

          aqui me tenho
          sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
          transparente

extraído do livro:  Muitas Vozes (José Olímpio, 1999)



MEU  PAI


meu pai foi
ao Rio se tratar de
um câncer (que
o mataria) mas
perdeu os óculos
na viagem

quando lhe levei
os óculos novos
comprados na Ótica
Fluminense ele
examinou o estojo com
o nome da loja dobrou
a nota de compra guardou-a
no bolso e falou:
quero ver
agora qual é o
sacana que vai dizer
que eu nunca estive
no Rio de Janeiro.


Filhos 


               
A meu filho Marcos

 

Daqui escutei
quando eles
chegaram rindo
e correndo
entraram
na sala
       
e logo
invadiram também
o escritório
(onde eu trabalhava)
num alvoroço
e rindo e correndo
se foram
com sua alegria 

se foram 

Só então
me perguntei
por que
não lhes dera
maior
atenção
      
se há tantos
      
e tantos
      
anos
      
não os via crianças

já que
agora
estão os três
com mais
de trinta anos.


PARA CLÁUDIA

Nova Canção do Exílio

Minha amada tem palmeiras
Onde cantam passarinhos
e as aves que ali gorjeiam
em seus seios fazem ninhos
Ao brincarmos sós à noite
nem me dou conta de mim:
seu corpo branco na noite
luze mais do que o jasmim
Minha amada tem palmeiras
tem regatos tem cascata
e as aves que ali gorjeiam
são como flautas de prata
Não permita Deus que eu viva
perdido noutros caminhos
sem gozar das alegrias
que se escondem em seus carinhos
sem me perder nas palmeiras
onde cantam os passarinhos

00--00


Estranheza do Mundo


Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.
Pervago em um mundo estranho.
Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro:
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.
Olho a árvore e já
não pergunto "para quê"?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.

fonte: Projeto Releituras\


poesia