ferreira2
Ferreira Gullar

Érico

POEMA SUJO

2a parte

Apenas os índios vinham banhar-se
na praia do Jenipapeiro, apenas eles
ouviam o vento nas árvores
e caminhavam por onde
hoje são avenidas e ruas,
sobrados cobertos de limo,
cheios de redes e lembranças
na obscuridade.
Mas desses índios timbiras
nada resta, senão coisas contadas em livros
e alguns poemas em que se tenta
evocar a sombra dos guerreiros
com seu arco
ocultos entre as folhas
(o que não impede que algum menino
tendo visto no palco da escola
Y Juca Pyrama
saia a buscar
pelos matos da Maioba ou da Jordoa
- o coração batendo forte -
vestígios daqueles homens,
mas não encontra mais
que o rumor do vento nas árvores)
Exceto se encontra
pousado
um pássaro azul e vermelho
- a brisa entortando-lhe as penas feito
um leque feito
o cocar de um guerreiro
que nele se transformara
para continuar habitando aqueles matos.
E mesmo que
não seja o pássaro o guerreiro
foi de certo visto por ele um dia
e por isso
estranhamente
está presente ali
vendo-o de novo
quem sabe agora mesmo atrás do menino atrás
dos ramos
quando
algo se mexe
e uma lagartixa foge sobre as folhas secas.
E tudo isso se passa
sob a copa das árvores
(longe
da estrada por onde trafegam bondes
e ônibus,
e mais longe ainda
das ruas da Praia Grande
atravancadas de caminhões
pracistas como João Coelho e estivadores
que descarregam babaçu)
tudo isso se passa
como parte da história dos matos e dos pássaros
E na história dos pássaros
os guerreiros continuam vivos.
E eu nunca pensara antes que havia
uma história dos pássaros
embora conhecesse tantos
desde
o canário-da-terra (na gaiola
de seu Neco), a rolinha fogo-pagô
(na cumeeira da casa)
até o bigode-pardo
(que se pegava com alçapão no capinzal)
o galo de campina
parecia um oficial
em uniforme de gala;
o anum era um empregado
da limpeza pública;
o urubu, um crioulo
de fraque; o bem-te-vi,
um polícia de quepe
e apito na boca
sempre atarefado
Para me dar conta
da história dos pássaros
foi preciso ver
o pássaro vermelho e azul
scanear a partir da pág. 64
mal pousada no galho
grande demais para aqueles matos
como um fantasma
(a balançar no vento)
foi preciso vê-lo
dentro daquele silêncio
feito de pequenos barulhos vegetais
E de - fazendo sua história - voou
sem se saber por que
e foi pousar noutra árvore
já agora quase oculto
ora parecendo flor ora folha colorida
e assim sumiu
Já a história dos urubus
é praticamente a mesma história dos homens
que têm cães que morrem
atropelados
em frente à porta da casa
que têm papagaios que aprendem a falar
na cozinha
e curiós
cantando
na gaiola da barbearia
(a filha do barbeiro
fugiu com o filho
do carteiro
um mulato
que trabalhava nos Correios.
As vizinhas cochichavam:
"se tivesse fugido
com um branco
ao menos ia poder casar")
Enquanto isso
o dr. Gonçalves Moreira mantinha na sua sala
um casal de canários belgas numa gaiola de prata
(na Avenida Beira-mar em frente à entrada da baia)
E trouxe uma caboclinha
de suas terras em Barra do Corda
para arrumar as gavetas (lençóis
de linho branco cheirando a alfazema)
e cuidar dos canários:
ela limpava a gaiola
e renovava a água e o alpiste
todas as manhãs
na janela do alpendre
(na época da guerra).
Lá embaixo no quintal
a lavadeira batia roupa
no tanque
e cantava junto com a água.
O mamoeiro rente ao muro
amadurecia um mamão para a sobremesa do doutor
(isso por volta de 1942, 43,
quando chegaram os americanos
para construir a base aérea do Tirirical:
compraram todas as frutas e legumes
do Mercado
pagaram um salário incrível pro Antônio José
e puseram o pé em cima da mesa
no Moto Bar)
E os canários, nem-seu-souza,
trinavam na gaiola de prata
Camélia caiu na vida
porque ainda não existia a pílula
Pagou caro aquele amor
feito com dificuldade
detrás do jirau de roupas
em pé junto à cerca
enquanto a família dormia
(o mesmo gosto de hortelã
das pastilhas de aniversário)
Seu pai, seu Cunha, o barbeiro,
quase morre de vergonha,
ele que fazia a barba
de todos os homens da rua
(e o curió na gaiola,
nem-seu-souza).
Por que vai um homem ter filhas,
meu Deus? E ele tinha três.
A mais velha, que era mais sonsa,
foi ao Josias tomar
uma injeção de Eucaliptina
e o enfermeiro aconselhou:
"Dói muito. É melhor num lugar
que tenha mais carne".
E desde esse santo dia
era injeção toda tarde.
(e o curió,
nem-seu-souza)
A terceira ficou séria
virou filha-de-Maria
(e o curió,
nem-seu-souza)
Já o canário-da-terra
de cantar quando
manhã de domingo
Neco matou a mulher
- dizem - lhe punha chifres:
a gaiola rolou no chão.
("Canivetada nas costas,
pegou bem aqui, lá nela.
Não saiu um pingo de sangue,
foi hemorragia interna")
A morte se alastrou por toda a rua,
misturou-se às árvores da quinta,
penetrou na cozinha de nossa casa
ganhou o cheiro da carne que assava na panela
e ficou brilhando nos talheres
dispostos sobre a toalha
na mesa do almoço.
Salve a mulher de amarelo
Põe a de verde no chinelo
Mas a mulher de estampado
Deixa o homem amarrado
Mas essa é a história de pássaros
já de há muito urmanizados
pois a história dos pássaros
pássaros
só os guerreiros conhecem
só eles a entendem quando o vento
(numa lembrança)
sopra-a nas árvores de São Luís.
Não seria correto dizer
que a vida de Newton Ferreira
escorria ou se gastava
entre cofos de camarões, sacas de arroz
e paneiros de farinha-d’água
naquela sua quitanda
na esquina da Rua dos Afogados
com a Rua da Alegria.
Não seria correto porque
se alguém chegasse lá
por volta das 3 da tarde (hora
de pouco movimento) - ele meio debruçado
no balcão lendo "X-9" -
veria que tudo estava parado
na mesma imobilidade branca
do fubá dentro do depósito
e das prateleiras cheias de latas e garrafas
e do balcão com a balança Filizola
tudo
sobre o chão de mosaico verde e branco
como uma plataforma da tarde.
Parado e ao mesmo tempo inserido
num amplo sistema
que envolvia os armazéns
da Praia Grande, a Estrada-de-Ferro-São Luís-Teresina,
fazendas em Coroatá, Codó, plantações de arroz
e fumo, homens que punham camarões para secar
ao sol em Guimarães. E as próprias famílias
da rua
que se sentariam mais tarde à mesa do jantar.
Por isso mesmo
ele podia mergulhar naquele mundo de gangsters americanos
sem ansiedade.
É verdade, porém, que uma esquina mais acima
(às suas costas)
na Avenida Gomes de Sousa
a tarde passava ruidosamente
farfalhando nos oitizeiros como o vento por um relógio de folhas.
É que a tarde tem muitas velocidades
sendo mais lenta.
por exemplo
no esgarçar de um touro de nuvem
que ela agora arrasta iluminada
na direção do Desterro
por cima da capital
(como uma aranha, poderia dizer?
que ata e puxa a presa para devorá-la?
como um abutre invisível a destripá-la
num ballet
e muito acima do telhado da quitanda
em pleno ar? )
E em meio a um outro sistema
este
de ventos
que avançavam escuros das bandas do Apeadouro
ou das cabeceiras do Bacanga,
úmidos às vezes,
num estampido que faz sacudir os aviões.
Não,
não cabe falar de aranha
se penso na cidade se desdobrando em seus
telhados e torres de igrejas
sob um sol duro
as famílias debaixo das telhas, retratos de mortos
com o rosto exageradamente colorido
dentro de molduras pintadas de dourado,
cômodas
antigas, pequenas caixas com botões e novelos de linha,
parentes tuberculosos em quartos escuros, tossindo
baixo para que o vizinho não ouça, crianças
que mal começam a andar
agarrando-se às pernas de pais que nada podem,
debaixo daqueles telhados encardidos
de nossa pequena cidade
a qual
alguém que venha de avião dos EUA
poderá ver
postada na desembocadura suja de dois rios
lá embaixo
e como se para sempre. Mas
e o quintal da Rua das Cajazeiras? O tanque
do Caga-Osso? a Fonte do Bispo? a quitanda
de Newton Ferreira?
Nada disso verá
de tão alto
aquele hipotético passageiro da Braniff.
Debruçado no balcão
Newton Ferreira lê
seu conto policial.
Nada sabe das conspirações
meteorológicas que se tramam
em altas esferas azuis acima do Atlântico.
Na quitanda
o tempo não flui
antes se amontoa
em barras de sabão Martins
mantas de carne-seca
toucinho mercadorias
todas com seus preços e
cheiros
ajustados ao varejo
(o olho sujo
do querosene
espiava na lata debaixo do balcão) .
Mas nada disso se percebe
voando sobre a cidade a 900 quilômetros por hora.
Nem mesmo andando a pé
entre aquelas duas filas de porta-e-janela,
meias-moradas de sacada de ferro e platibandas
manchadas de caruncho
(no vermelho
entardecer)
Nem mesmo que a quitanda
exista ainda e que já sejam oito horas da noite
e se veja
pela única folha da porta entreaberta a luz acesa
como antigamente
e haja homens conversando lá dentro
entre lambadas de cachaça
e seja o mesmo o balcão
e o cheiro das mercadorias
lá não encontrarás o Gonzaga, sargento músico do exército.
Já não se falará da guerra que a guerra acabou
faz muitos anos.
Descendo ou subindo a rua,
mesmo que vás a pé,
verás que as casas são praticamente as mesmas
mas nas janelas
surgem rostos desconhecidos
como num sonho mau.
Mudar de casa já era
um aprendizado da morte: aquele
meu quarto com sua úmida parede manchada
aquele quintal tomado de plantas verdes
sob a chuva
e a cozinha
e o fio da lâmpada coberto de moscas,
nossa casa
cheia de nossas vozes
tem agora outros moradores:
ainda estás vivo e vês, e vês
que não precisavas estar aqui para ver.
As casas, as cidades,
são apenas lugares por onde
passando
passamos
(ora sentado ora deitado
ora comendo na mesa
bebendo água do pote
ora debruçado
no peitoril da janela, o frango
pingando ensopado debaixo
do jirau de plantas)
Nem a pé, nem andando de rastros,
nem colando o ouvido no chão
voltarás a ouvir nada do que ali se falou.
Do querosene, sim,
podes outra vez sentir o mesmo cheiro de trapo
e do sabão talvez
se é que a fábrica ainda não faliu.
Mas de Newton Ferreira, ex-
center-foward da seleção maranhense,
que dez vezes faliu.
e que era conhecido de todos na zona do comércio,
não há nenhum traço
naquele chão de mosaico verde e branco
(inutilmente o buscarás também
na sessão desta noite do poeira)
A cidade no entanto poderás vê-la do alto praticamente a mesma
com suas ruas e praças
por onde ele caminhava
Ah, minha cidade verde
minha úmida cidade
constantemente batida de muitos ventos
rumorejando teus dias à entrada do mar
minha cidade sonora
esferas de ventania
rolando loucas por cima dos mirantes
e dos campos de futebol
verdes verdes verdes verdes
ah sombra rumorejante
que arrasto por outras ruas
Desce profundo o relâmpago
de tuas águas em meu corpo,
desce tão fundo e tão amplo
e eu me pareço tão pouco
pra tantas mortes e vidas
que se desdobram
no escuro das claridades,
na minha nuca,
no meu cotovelo, na minha arcada dentária
no túmulo da minha boca
palco de ressurreições
inesperadas
(minha cidade
canora)
de trevas que já não sei
se são tuas se são minhas
mas nalgum ponto do corpo (do teu? do meu
corpo?)
lampeja
o jasmim
ainda que sujo da pouca alegria reinante
naquela rua vazia
cheia de sombras e folhas
Desabam as águas servidas
me arrastam por teus esgotos
de paletó e gravata
Me levanto em teus espelhos
me vejo em rostos antigos
te vejo em meus tantos rostos
tidos perdidos partidos
refletido
irrefletido
e as margaridas vermelhas
que sobre o tanque pendiam:
desce profundo
o relâmpago de tuas águas numa
vertigem de vozes brancas ecos de leite
de cuspo morno no membro
o corpo que busca o corpo
No capinzal escondido
naquele capim que era abrigo e afeto
feito cavalo sentindo
o cheiro da terra o cheiro
verde do mato o travo do cheiro novo
do mato novo da vida
viva das coisas
verdes vivendo
longe daquela mobília onde só vive o passado
longe do mundo da morte da doença da vergonha
da traição das cobranças à porta,
ali
bebendo a saúde da terra e das plantas,
buscando
em mim mesmo a fonte de uma alegria
ainda que suja e secreta
o cuspo morno a delícia
do próprio corpo no corpo
e num movimento terrestre
no meio do capim,
celeste o bicho que enfim alça vôo
e tomba
Ah, minha cidade suja
de muita dor em voz baixa
de vergonhas que a família abafa
em suas gavetas mais fundas
de vestidos desbotados
de camisas mal cerzidas
de tanta gente humilhada
comendo pouco
mas ainda assim bordando de flores
suas toalhas de mesa
suas toalhas de centro
de mesa com jarros
- na tarde
- durante a tarde
durante a vida -
cheios de flores
de papel crepom
já empoeiradas
minha cidade doída
Me reflito em tuas águas
recolhidas:
no copo
d’água
no pote d’água
na tina d’água
no banho nu no banheiro
vestido com as roupas
de tuas águas
que logo me despem e descem
diligentes para o ralo
como se de antemão soubessem
para onde ir
Para onde
foram essas águas
de tantos banhos de tarde?
Rolamos com aquelas tardes
no ralo do esgoto
e rolo eu
agora
no abismo dos cheiros
que se desatam na minha
carne na tua, cidade
que me envenenas de ti,
que me arrastas pela treva
me atordoas de jasmim
que de saliva me molhas me atochas
num cu
rijo me fazes
delirar me sujas
de merda e explodo o meu sonho
em merda.
Sobre os jardins da cidade
urino pus. Me extravio
na Rua da Estrela, escorrego
no Beco do Precipício.
Me lavo no Ribeirão.
Mijo na Fonte do Bispo.
Na Rua do Sol me cego,
na Rua da Paz me revolto
na do Comércio me nego
mas na das Hortas floresço;
na dos Prazeres soluço
na da Palma me conheço
na do Alecrim me perfumo
na da Saúde adoeço
na do Desterro me encontro
na da Alegria me perco
Na Rua do Carmo berro
na Rua Direita erro
e na da Aurora adormeço
Acordo na zona. O dia ladra, navega
enfunado e azul
Vôo
com as toalhas brancas
Vou pousar no sorriso de Isabel
Tropeço num preconceito caio das nuvens
descubro Marília
me aconchego em suas pétalas como a pomba
do Divino entre rosas na bandeja.
Mas vem junho e me apunhala
vem julho me dilacera
setembro expõe meus despojos
pelos postes da cidade
(me recomponho mais tarde,
costuro as partes, mas os intestinos
nunca mais funcionarão direito)
Prego a subversão da ordem
poética, me pagam. Prego
a subversão da ordem política,
me enforcam junto ao campo de tênis dos ingleses
na Avenida Beira-Mar
(e os canários,
nem-seu-souza: improvisam
em sua flauta de prata)
Vendo o que tenho e me mudo
para a capital do país.
(Se tivesse me casado com Maria de Lourdes,
meus filhos seriam dourados, uns, outros
morenos de olhos verdes
e eu terminaria deputado e membro
da Academia Maranhense de Letras;
se tivesse me casado com Marília,
teria me suicidado na discoteca da Rádio Timbira)
Mas na cidade havia
muita luz,
a vida
fazia rodar o século nas nuvens
sobre nossa varanda
por cima de mim e das galinhas no quintal
por cima
do depósito onde mofavam
paneiros de farinha
atrás da quitanda,
e era pouco
viver, mesmo
no salão de bilhar, mesmo
no botequim do Castro, na pensão
da Maroca nas noites de sábado, era pouco
banhar-se e descer a pé
para a cidade de tarde
(sob o rumor das árvores)
ali
no norte do Brasil
vestido de brim.
E por ser pouco
era muito,
que pouco muito era o verde
fogo da grama, o musgo do muro, o galo
que vai morrer,
a louça na cristaleira,
o doce na compoteira, a falta
de afeto, a busca
do amor nas coisas.
Não nas pessoas:
nas coisas, na muda carne
das coisas, na cona da flor, no oculto
falar das águas sozinhas:
que a vida
passava por sobre nós,
de avião.
Não tem a mesma velocidade o domingo
que a sexta-feira com seu azáfama de compras
fazendo aumentar o tráfego e o consumo
de caldo-de-cana gelado,
nem tem
a mesma velocidade
a açucena e a maré
com seu exército de borbulhas e ardentes caravelas
a penetrar soturnamente o rio
noutra lentidão que a do crepúsculo
que, no alto,
com sua grande engrenagem escangalhada
moía a luz.
Outra velocidade
tem Bizuza sentada no chão do quarto
a dobrar os lençóis lavados e passados
a ferro, arrumando-os na gaveta da cômoda, como
se a vida fosse eterna.
E era
naquele seu universo de almoços e temperos
de folhas de louro e de pimenta-do-reino
mastruz para tosse braba,
universo
de panelas e canseiras entre as paredes da cozinha
dentro de um surrado vestido de chita,
enfim,
onde batia o seu pequenino coração.
E se não era
eterna a vida, dentro c fora do armário,
o certo é que
tendo cada coisa uma velocidade
(a do melado
escura, clara
a da água
a derramar-se)
cada coisa se afastava
desigualmente
de sua possível eternidade.
Ou
se se quer
desigualmente
a tecia
na sua própria carne escura ou clara
num transcorrer mais profundo que o da semana.
Por isso não é certo dizer
que é no domingo que melhor se vê
a cidade
- as fachadas de azulejo, a Rua do Sol vazia
as janelas trancadas no silêncio -
quando ela
parada
parece flutuar.
E que melhor se vê uma cidade
quando - como Alcântara -
todos os habitantes se foram
e nada resta deles (sequer
um espelho de aparador num daqueles
aposentos sem teto) - se não
entre as ruínas
a persistente certeza de que
naquele chão
onde agora crescem carrapichos
eles efetivamente dançaram
(e quase se ouvem vozes
e gargalhadas
que se acendem e apagam nas dobras da brisa)
Mas
se é espantoso pensar
como tanta coisa sumiu, tantos
guarda-roupas e camas e mucamas
tantas e tantas saias, anáguas,
sapatos dos mais variados modelos
arrastados pelo ar junto com as nuvens,
a isso
responde a manhã
que
com suas muitas e azuis velocidades
segue em frente
alegre e sem memória
É impossível dizer
em quantas velocidades diferentes
se move uma cidade
a cada instante
(sem falar nos mortos
que voam para trás)
ou mesmo uma casa
onde a velocidade da cozinha
não é igual à da sala (aparentemente imóvel
nos seus jarros e bibelôs de porcelana)
nem à do quintal
escancarado às ventanias da época
e que dizer das ruas
de tráfego intenso e da circulação do dinheiro
e das mercadorias
desigual segundo o bairro e a classe, e da
rotação do capital
mais lenta nos legumes
mais rápida no setor industrial, e
da rotação do sono
sob a pele,
do sonho
nos cabelos?
e as tantas situações da água nas vasilhas
(pronta a fugir)
a rotação
da mão que busca entre os pentelhos
o sonho molhado os muitos lábios
do corpo
que ao afago se abre em rosa, a mão
que ali se detém a sujar-se
de cheiros de mulher,
e a rotação
dos cheiros outros
que na quinta se fabricam
junto com a resina das árvores e o canto
dos passarinhos?
Que dizer da circulação
da luz solar
arrastando-se no pó debaixo do guarda-roupa
entre sapatos?
e da circulação
dos gatos pela casa
dos pombos pela brisa?
e cada um desses fatos numa velocidade própria
sem falar na própria velocidade
que em cada coisa há
como os muitos
sistemas de açúcar e álcool numa pêra
girando
todos em diferentes ritmos
(que quase
se pode ouvir)
e compondo a velocidade geral
que a pêra é
do mesmo modo que todas essas velocidades mencionadas
compõem
(nosso rosto refletido na água do tanque)
o dia
que passa
- ou passou -
na cidade de São Luís.
E do mesmo modo
que há muitas velocidades num
só dia
e nesse mesmo dia muitos dias
assim
não se pode também dizer que o dia
tem um único centro
(feito um caroço
ou um sol)
porque na verdade um dia
tem inumeráveis centros
como, por exemplo, o pote de água
na sala de jantar
ou na cozinha
em torno do qual
desordenadamente giram os membros da família.
E se nesse caso
é a sede a força de gravitação
outras funções metabólicas
outros centros geram
coma a sentina
a cama
ou a mesa de jantar
(sob uma luz encardida numa
porta-e-janela da Rua da Alegria
na época da guerra)
sem falar nos centros cívicos, nos centros
espíritas, no Centro Cultural
Gonçalves Dias ou nos mercados de peixe,
colégios, igrejas e prostíbulos,
outros tantos centros do sistema
em que o dia se move
(sempre em velocidades diferentes)
sem sair do lugar.
Porque
quando todos esses sóis se apagam
resta a cidade vazia
(como Alcântara)
no mesmo lugar.
Porque
diferentemente do sistema solar
a esses sistemas
não os sustém o sol e sim
os corpos
que em torno dele giram:
não os sustém a mesa
mas a fome
não os sustém a cama
e sim o sono
não os sustém o banco
e sim o trabalho não pago
E essa é a razão porquê
quando as pessoas se vão
(como em Alcântara)
apagam-se os sóis (os
potes, os fogões)
que delas recebiam o calor
essa é a razão
porque em São Luís
donde as pessoas não se foram
ainda neste momento a cidade se move
em seus muitos sistemas
e velocidades
pois quando um pote se quebra
outro pote se faz
outra cama se faz
outra jarra se faz
outro homem
se faz
para que não se extinga
o fogo
na cozinha da casa
O que eles falavam na cozinha
ou no alpendre do sobrado
(na Rua do Sol)
saía pelas janelas
se ouvia nos quartos de baixo
na casa vizinha, nos fundos da Movelaria
(e vá alguém saber
quanta coisa se fala numa cidade
quantas vozes
resvalam por esse intrincado labirinto
de paredes e quartos e saguões,
de banheiros, de pátios, de quintais
vozes
entre muros e plantas,
risos,
que duram um segundo e se apagam)
E são coisas vivas as palavras
e vibram da alegria do corpo que as gritou
têm mesmo o seu perfume, o gosto
da carne
que nunca se entrega realmente
nem na cama
senão a si mesma
à sua própria vertigem
ou assim
falando
ou rindo
no ambiente familiar
enquanto como um rato
tu podes ouvir e ver
de teu buraco
como essas vozes batem nas paredes do pátio vazio
na armação de ferro onde seca uma parreira
entre arames
de tarde
numa pequena cidade latino-americana.
E nelas há
uma iluminação mortal
que é da boca
em qualquer tempo
mas que ali
na nossa casa
entre móveis baratos
e nenhuma dignidade especial
minava a própria existência:
Ríamos, é certo,
em torno da mesa de aniversário coberta de pastilhas
de hortelã enroladas em papel de seda colorido,
ríamos, sim,
mas
era como se nenhum afeto valesse
como se não tivesse sentido rir
numa cidade tão pequena.
O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade
mas variadas são os modos
como uma coisa
está em outra coisa:
o homem, por exemplo, não está na cidade
como uma árvore está
em qualquer outra
nem como uma árvore
está em qualquer uma de suas folhas
(mesmo rolando longe dela)
O homem não está na cidade
como uma árvore está num livro
quando um vento ali a folheia
a cidade está no homem
mas não da mesma maneira
que um pássaro está numa árvore
não da mesma maneira que um pássaro
(a imagem dele)
está/va na água
e nem da mesma maneira
que o susto do pássaro
está no pássaro que eu escrevo
a cidade está no homem
quase como a árvore voa
no pássaro que a deixa
cada coisa está em outra
de sua própria maneira
e de maneira distinta
de como está em si mesma
a cidade não está no homem
do mesmo modo que em suas
quitandas praças e ruas
Buenos Aires
maio/outubro 1975

fonte: Literaturbank
 

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