florbela
Florbela Espanca

(1894-1930)


A poetisa portuguesa Florbela Espanca morreu relativamente ignorada pela crítica e pelo público leitor de poesia em sua época. Em vida publicou dois volumes de poesia, e às proprias custas:  O LIVROS DE MÁGOAS,  1919   e  o  LIVRO DE "SÓROR SAUDADE",  em 1923. Florbela d'Alma da Conceição Espanca suicidou-se em dezembro de 1930, às vésperas de ver editado CHARNECA EM FLOR, que se tornaria um fenômeno editorial, muito  pelo tanto de mistério e insinuações maldosas  acercado suicídio da poetisa. Grande parte dos  poemas de Florbela  revelam uma carga romântica e juvenil, seu principal  interlocutor é o universo masculino, talvez  resida aía polêmica  e o encantamento que seus versos provocam desde quando foram publicados. Os poemas aqui selecionados foram retirados do livro POEMAS, em edição preparada por Maria Lúcia Dal Farra, Martins Fontes Editora.
 

Aos olhos dele
 

       Não acredito em nada. As minhas crenças
       Voaram como voa a pomba mansa;
       Pelo azul do ar. E assim fugiram
       As minhas doces crenças de criança.
        Fiquei então sem fé; e a toda a gente
        Eu digo sempre, embora magoada:
        Não acredito em Deus e a Virgem Santa
        É uma ilusão apenas e mais nada!

        Mas avisto os teus olhos, meu amor,
        Duma luz suavíssima de dor...
        E grito então ao ver esses dois céus:

        Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa
        Que criou esse brilho que m'encanta!
        Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!
 

                                                  17/4/1916
 
 

             EU...
 

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
 

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!
 
 

  Vaidade
 

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...
                               E não sou nada!...



fonte: tanto

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