HUMBERTO DE CAMPOS

HUMBERTO DE CAMPOS


 

1886- 1934 

BEATRIZ
 

Bandeirante a sonhar com pedrarias
Com tesouros e minas fabulosas,
Do amor entrei, por ínvias e sombrias
Estradas, as florestas tenebrosas.

Tive sonhos de louco, à Fernão Dias...
Vi tesouros sem conta: entre as umbrosas
Selvas, o ouro encontrei, e o ônix, e as frias
Turquesa, e esmeraldas luminosas...

E por eles passei. Vivi sete anos
Na floresta sem fim. Senti ressábios
De amarguras, de dor, de desenganos.

Mas voltei, afinal, vencendo escolhos,
Com o rubi palpitante dos seus lábios
E os dois grandes topázios dos seus olhos!
(Poeira...Primavera Série, 1911, A Poesia
Maranhense no Século XX, Assis Brasil)
 

MIRITIBA
 

É o que me lembra: uma soturna vila
Olhando um rio sem vapor nem ponte;
Na água salobra, a canoada em fila...
Grandes redes ao sol, mangais defronte...

De um lado e de outro, fecha-se o horizonte...
Duas ruas somente...a água tranquila...
Botos no prea-mar...A igreja...A fonte
E as grandes dunas claras onde o sol cintila.

Eu, com seis anos, não, ou penso.
Põe-me no barco mais veleiro, e, a bordo,
Minha mãe, pela noite, agita um lenço...

Ao vir do sol, a água do mar se alteia.
Range o mastro... Depois... só me recordo
Deste doido lutar por terra alheia!
(Poeira... Segunda Série, 1917, A Poesia
Maranhense no Século XX, Assis Brasil)
 

SEMENTE DO DESERTO
 

No alto sertão da minha terra
Cai, misteriosa, uma semente
Que a outras sementes move guerra.

Onde ela nasce, de repente,
- Seara de mão cruel e ignota -
A relva murcha, suavemente.

E nas planícies onde brota,
E onde nem sempre é conhecida,
Toda a campina se desbota...

(Semente bárbara e remota,
Quem te semeou na minha vida?)

(Poeira...Terceira Série, in Poesias Completas, 1933
(Poesia Maranhense no Século XX, Assis Brasil)

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