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José NeresNasceu em São José de Ribamar (MA), no dia 17 de fevereiro de 1970. Foi criado entre Brasília e Goiás. De volta ao Maranhão, em 1986, estudou Letras na UFMA e fez pós-graduação em Literatura Brasileira na PUC-MG. Além de parcipar de várias antologias literárias, publicou em 1999 o livro Negra Rosa & Outros Poemas, em 2000, Os Epigramas de Artur, em parceria com Dino Cavalcante, além de diversos artigos sobre literatura, principalmente sobre a maranhense. Trabalha como professor na rede particular de ensino e na Universidade Federal do Maranhão.
A UM MENINO DE RUA
Como os vira-latas das sarjetas...
As crianças ainda estão com fome
Como as crianças de minha infância...
(Alex Brasil)
Menininho triste
Triste de tanto sofrer
Será que nunca viste
O sol cedo nascer?
Garoto cor de neve
De neve negra e quente
A alguém você deve
A tristeza de ser
gente.
Menino que passa fome
Fome da saber
Aprende a ler teu nome
Para nunca dele esquecer.
II
as costelas riscando as costas nuas
que trazem as marcas da fome feroz
fome não só de alimento
mas de carinho compreensão amor
as pernas finas são movidas pelo medo
que aterroriza as noites frias
os braços longos descarnados
mostram marcas de prazeres
em forma de algumas gotas
de veneno comprado como se fosse mel
os pés descalços rudes retratam
sem pudor os lugares por que correram
as pernas trêmulas de fome
a cabeça viaja em busca de sonhos
perdidos de dias melhores
costelas fomes brigas et coetera
tudo isso e muito mais faz a vida eterna-
mente vazia de esperança
III
dorme nas ruas desertas
em companhia de animais
(ou coisa pior)
mata a sede ou morre de sede
mata a fome ou morre de fome
mata o homem ou é
morto pelo homem
IV
estudos não conhece mas o mundo
conhece pela cultura de um deus
concretário
um deus a quem não obedece
um deus a quem faz obedecer
a faca é seu deus
o canivete é seu deus
o revólver é seu deus
qualquer arma é
seu deus
V
seu inimigo natural: a Lei
só uma coisa é mais perigosa para ele
que a Lei o seu irmão
como guia dedicado tem dois
a morte e o perigo
esportes? Matar roubar violar
esportes de sangue
de sangue vermelho
de sangue humano
seu prazer é vê-lo correr
pelo asfalto tingindo
o solo cinza
VI
sujeito agente e paciente da violência
pobre violado rude violentador
inocente culpado culpado inocente
réu juiz promotor carrasco
executor da própria lei
lei cruel sangrenta
sem lei
Pobre garoto
pobre garoto
tão pobre e roto
só de sofrer
só de sofrer
do lado esquerdo do direito lado
a sombra do medo um grito calado
envolta em dor de puro terror
morte sem ver... vida sem ter...
pingo de amor
e teu destino
sobre menino
sabes qual é
Morte bem triste
Morte qualquer
Morte sem grito
Morte sem fé
Morte sem choro
de uma mulher