LAURO LEITE
LAURO LEITE
 

OS TEMPOS
 

Tinha uma porção de anjos
segurando o algodão daquela nuvem branca;
e o que pintou de azul o fundo,
manchou de cinza o fim dos nossos olhos
e nos beijamos.

Tinha um lago calmo
e o vento sussurrava malícias,
o peixe prata luar de agosto saltou
e nos amamos.

Tinha o fogo dos infernos,
um Lucifer danado
e homens se matando;
eu tinha lágrimas nos olhos
e tu também choravas
quando nos deixamos.
 

IRONIA LÚCIDA
 

Agora é tempo de sorrir
e ser de novo
o garoto das compras e dos recados

Agora é tempo de fingir
que nada valem
os eternos fundilhos remendados.

Agora é tempo de esquecer as lágrimas
- engoli-las de uma vez! -
e voltar à surdez da ignorância,
pois já me afogo em tanta ironia,
pois não suporto ter-me em consciência
e já não quero amar-me em lucidez.
(Os Filhos de Dom Quixote, 1987, A Poesia
Maranhense no Século XX, Assis Brasil)
 
 

Vinde a mim
as velas coloridas
que aportam às prostitutas
do Desterro.

Abram os caminhos:
quero falar com a Mãe de Deus
e receber a unção
da ansiedade
e da poesia.

Calem, por favor,
as radiolas regueiras;
quero ouvir o boi-bumbá
e o criola,
quero rodopiar o corpo
no balé negreiro.

Agora, tragam a rede
que o poeta vai dormir
com o sonhar afoito
das gentes maranhenses
e o corpo cansado do viver intenso.
(Discurso Essencial, 1992, A Poesia
Maranhense no Século XX, Assis Brasil)

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