manoeldebarros
Manoel de Barros

Livro das Ignorãnças

1a parte
Uma didática da invenção

2a parte
Os deslimites da palavra

3a parte
Mundo pequeno

Entrevista

biografia e Bibliografia



                    5.
                  Sou um sujeito cheio de recantos.
                  Os desvãos me constam.
                  Tem hora leio avencas.
                  Tem hora, Proust.
                  Ouço aves e beethovens.
                  Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.

                   O dia vai morrer aberto em mim.
 
 

I0

Diário de Bugrinha ( excertos)
1925

22.I
O nome de um passarinho que vive no cisco é joão-
ninguém. Ele parece com Bernardo.

23.2
Lagartixas tem odor verde.

2.3
Formiga é um ser tão pequeno que não aguenta nem
neblina. Bernardo me ensinou: Para infantilizar formi-
gas é só pingar um pouquinho de água no coração delas.
Achei fácil.

23.2
Quem ama exerce Deus - a mãe disse. Uma açucena
me ama. Uma açucena exerce Deus?

2.3
Eu queria crescer pra passarinho...

5.3
A voz de meu avô arfa. Estava com um livro debaixo
dos olhos. Vô! o livros está de cabeça pra baixo. Estou
deslendo.

5.6
O frio se encolheu nos passarinhos. Ó noite congelada
de jacintos! Eu estou transida de pétalas.

7.8
O pai trouxe do campo um filhote de urubu.
Ele é branco e já fede.

12.8
As graças descem nos brejos que nem brisas.
Todas as manhãs.

I0.9
Um sapo feneceu 3 borboletas de uma vez atrás de
casa. Ele fazia uma estultícia?

13.9
A mãe bateu no Mano Preto. Falou que eu não apa-
nhava porque não dei motivo. Subi no pico do telhado
para dar motivo. Aqui de cima do telhado a lua pra-
teava. A mãe disse que aquilo não era motivo.

19.9
Uma égua iniciava meu irmão. O pai ralhou com ele.
Meu irmão foi entrando pra inseto até desaparecer.
ficou dentro do mato até amanhã.

I.I0
Bernardo fala com pedra, fala com nada, fala com ár-
vore. As plantas querem o corpo dele para crescer por
sobre. Passarinho já  faz poleiro na sua cabeça.

I I.I I
A mãe disse que bernardo é bocó. Uma pessoa sem
pensa.

5.2
Sem chuvas, já reparei, as andorinhas perdem o poder
de voar livres.

29.2
Hoje o Lara morreu picado de cobra. Fizeram seu
caixão de costaneiras. Meu avô encostou no caixão. Ué,
eu que morri e quem está no caixão é o Lara! Meu avô
enxergava mal.

2.I.26
Catre velho é um ser confortável pra moscas. Ele nem
espanta algumas.

12.I
Choveu de noite até encostar em mim. O rio deve estar
mais gordo. Escutei um perfume de sol nas águas.

1.3
As árvores me começam.

I.4
Uma violeta me pensou. Me encostei no azul de sua
tarde.

I0.4
Os patos prologam meu olhar... Quando passam
levando a tarde pra longe eu acompanho...

2I.4
Pensar que a gente cessa é íngreme. Minha alegria ficou
sem voz.

22.4
Hoje completei 10 anos. Fabriquei um brinquedo com
palavras. Minha mãe gostou. É assim:
De noite o silêncio estica os lírios.

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   Carrego meus primórdios num andor.
   Minha voz tem um vício de fontes.
   Eu queria avançar para o começo.
   Chegar ao criançamento das palavras.
   Lá onde elas ainda urinam na perna.
   Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.
   Quando a criança garatuja o verbo para falar o que
   não tem.
   Pegar no estame do som.
   Ser a voz de um lagarto escurecido.
   Abrir um descortínio para o arcano.

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   Nasci para administrar o à-toa
        o em vão
        o inútil.
   Pertenço de fazer imagens.
   Opero por semelhanças.
   Retiro semelhanças de pessoas com árvores
              de pessoas com rãs
              de pessoas com pedras
              etc etc.

   Retiro semelhanças de árvores comigo.
   Não tenho habilidade pra clarezas.
   Preciso de obter sabedoria vegetal.
   (Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã
   no talo.)
   E quando esteja apropriado para pedra, terei também
   sabedoria mineral.


   fonte: tanto


O LIVRO SOBRE NADA

 


NOS PRIMÓRDIOS

         Era só água e sol de primeiro este recanto. Meninos cangavam sapos. Brincavam de primo com prima. Tordo ensinava o brinquedo "primo com prima não faz mal: finca finca". Não havia instrumento musical. Os homens tocavam gado. As coisas ainda inominadas. Como no começo dos tempos.

         Logo se fez a piranha. Em seguida os domingos e feriados. Depois os cuiabanos e os beira-corgos. Por fim o cavalo e o anta batizado.

         Nem precisaram dizer crescei e multiplicai. Pois já se faziam filhos e piadas com muita animosidade.
         Conhecimentos vinham por infusão pelo faro dos bugres pelos mascates.

         O homem havia sido posto ali nos inícios para campear e hortar. Porém só pensava em lombo de cavalo. De forma que só campeava e não hortava.

         Daí que campear se fez de preferência por ser atividade livre e andeja. Enquanto que hortar prendia o ente no cabo da enxada. O que não era bom.

         No começo contudo enxada teve seu lugar. Prestava para o peão encostar-se nela a fim de prover seu cigarrinho de palha. Depois, com o desaparecimento do cigarro de palha, constatou-se a inutilidade das enxadas.

         — O homem tinha mais o que não fazer!

         Foi muito soberano mesmo no começo dos tempos este cortado. Burro não entrava em seus pastos. Só porque burro não pega perto.*  Porém já hoje há quem trate os burros como cavalo. O que é uma distinção.


AUTO-RETRATO FALADO

 

Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.

Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.

Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,

aves, pessoas humildes, árvores e rios.

Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar

entre pedras e lagartos.

Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto

meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou

abençoado a garças.

Me procurei a vida inteira e não me achei -- pelo que

fui salvo.

Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.

Os bois me recriam.

Agora eu sou tão ocaso!

Estou na categoria de sofrer do moral porque só faço

coisas inúteis.

No meu morrer tem uma dor de árvore.


MANOEL DE BARROS, poeta e fazendeiro mato-grossense, nasceu em 1916 e teve seu primeiro livro publicado em 1937 - Poemas concebidos sem pecado.  Passou a ser mais conhecido a partir do ano de 1997, quando ganhou o prêmio Nestlé de Literatura. De seu "Livro sobre Nada", Editora Record - Rio de Janeiro,1997, págs. diversas,  já em 5ª edição, extraímos os versos acima.  Nele o autor diz, a título de "Pretexto":

        "O que eu gostaria de fazer é um livro sobre nada.  Foi o que escreveu Flaubert a uma sua amiga em 1852.   Li nas Cartas exemplares organizadas por Duda Machado.  Ali se vê que o nada de Flaubert não seria o nada existencial, o nada metafísico.  Ele queria o livro que não tem quase tema e se sustente só pelo estilo.  Mas o nada de meu livro é nada mesmo.  É coisa nenhuma por escrito: um alarme para o silêncio, um abridor de amanhecer, pessoa apropriada para pedras, o parafuso de veludo, etc, etc.   O que eu queria era fazer brinquedos com as palavras.  Fazer coisas desúteis.   O nada mesmo.  Tudo que use o abandono por dentro e por fora."

fonte: Projeto Releituras


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