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Manoel de Barros
 

JOSÉ CASTELLO
 

 Entrevista com Manoel de Barros

                      Manoel de Barros faz do absurdo sensatez
                     CAMPO GRANDE - Parti para Mato Grosso do Sul
                com a cabeça carregada de frases de Manoel de Barros, que
                anotei das raras entrevistas que o poeta deu no passado.
                "Prefiro as máquinas que servem para não funcionar", ele disse.
                "Não gosto de dar confiança para a razão, ela diminui a
                poesia", afirmou também. "A poesia não existe para comunicar,
                mas para comungar", comentou ainda. "Desconfio do verso
                que fulgura; em poesia, o opaco é mais luminoso que o
                brilhante." E disse mais: "Poesia é um lugar onde a gente ainda
                pode fazer com que um absurdo seja uma sensatez."

                     Antes de viajar, dediquei-me a reler seus poemas. Mas
                frases sufocaram-me. "As coisas que não existem são as mais
                bonitas", está na abertura do Livro das Ignorãças, atribuída a
                Felisdônio. E mais à frente: "As coisas me ampliaram para
                menos." No Arranjos para Assobio há uma definição de
                poeta: "Sujeito inviável." No Concerto a Céu Aberto para
                Solo de Aves está dito: "O nome ensina ao poeta as suas
                semelhanças." E em Matéria da Poesia ele dá uma definição
                definitiva: "Poesia é a loucura das palavras."

                     Desde janeiro de 1996, eu vinha tentando convencer o
                poeta Manoel de Barros, de 80 anos, a receber-me para uma
                entrevista. Naquele verão, ele aceitou, por fim, responder a
                algumas perguntas por escrito. Nada mais. A maior parte das
                poucas entrevistas que Manoel deu ao longo da vida foi assim:
                perguntas por escrito e respostas anotadas no papel.

                     Levou três meses para enviar suas respostas -
                publicadas em março do ano passado no Estado. Não desisti.
                Nas muitas conversas preparatórias que tivemos por telefone,
                Manoel parecia sempre um homem simpático, mas retraído,
                pouco preparado para as coisas do mundo, entre elas a
                imprensa. Aos poucos, construí para meu uso pessoal o perfil
                de um interiorano, um caipira dos pântanos, um homem
                reservado e de poucas palavras, que qualquer repórter mais
                afoito poderia machucar seriamente.

                     Jogo - Ao chegar a Campo Grande, porém, levei uma
                rasteira - muito parecida com aquela que Manoel de Barros
                costuma dar-nos com seus magníficos versos. Descobri que,
                durante quase dois anos, ele jogara comigo, meigamente, mas
                com mestria, do mesmo modo que, na folha em branco, joga
                com suas palavras. Eu - o repórter - fui, por longos meses,
                apenas uma palavra na cabeça de Manoel de Barros. Uma
                palavra perigosa. Agora, graças a algum raciocínio que eu
                ainda não podia alcançar, ele abria a guarda e estávamos frente
                a frente.

                     Que homem encontrei? Imaginava Manoel de Barros
                magro e triste, mas ele é gorducho e enérgico. Imaginava um
                homem ingênuo, que passasse os dias entre cachorros e
                passarinhos - mas ele ouve concertos clássicos, lê Kant,
                Benjamin e Roland Barthes e toma cerveja com psicanalistas.
                Caí na armadilha de seus poemas. E talvez fosse isso o que,
                mantendo-se escondido, ele desejasse preservar: os versos.
                Manoel fala como qualquer senhor respeitável de 80 anos; não
                fala "torto", como falam seus poemas. É essa fala reta,
                provavelmente, o que ele chama de timidez: o homem comum
                que se esconde detrás dos versos insensatos.

                     A crer no próprio Manoel, esse homem que eu agora
                tinha diante de mim era falso - o verdadeiro só aparece nos
                poemas. "É a palavra que me vai desvelando", ele diz, sabendo
                que a palavra oral exigida em uma entrevista o rouba,
                justamente, daquele poder de burilar, de construir, de jogar,
                que a palavra escrita oferece. Ao responder a entrevistas por
                escrito, Manoel de Barros transformou as entrevistas em um
                gênero literário, tão digno quanto qualquer outro. Era essa,
                agora, a herança que me massacrava, mas também me fazia
                avançar.

                     Manoel sabe que o diálogo-padrão entre entrevistador e
                entrevistado, a idéia de que a determinadas perguntas
                correspondem determinadas respostas, a ilusão de que podem
                entender-se e comunicar-se, só empobrece a palavra. "Penso
                que só com a desarrumação sintática se consegue atingir o
                `criançamento' do idioma", ele disse certa vez.

                     E agora ali estava eu com minhas perguntas normais,
                querendo respostas comuns. Seria possível? Manoel também
                disse: "O meu apagamento me exibe antes que me apaga." Mas
                já estou eu, novamente, enroscado na teia das palavras. No
                entanto: poderia ser de outro modo?

                     A casa - Manoel de Barros mora em uma bela casa na
                Rua Piratininga, no Jardim dos Estados, desenhada pelo
                arquiteto mato-grossense Sérgio Saad e por seu companheiro,
                Osvaldo, que já morreu. Uma casa cheia de recantos, de
                pequenos jardins internos, de esconderijos, que dá a impressão
                de ser muito maior do que realmente é. Uma casa que engana
                e se disfarça - como ele próprio.

                     Na varanda do quarto, Manoel tem uma pitangueira,
                plantada pacientemente pela mulher, Stella, e hoje carregada
                de frutos. No pequeno jardim da frente, cercado por um muro
                de 2 metros, os passarinhos de Campo Grande vêm
                cumprimentá-lo. O escritório, em um pequeno cômodo do
                segundo andar, é escuro e misterioso. A chave fica escondida
                no corredor, sobre o batente da porta. De 7 horas ao
                meio-dia, todos sabem, Manoel tranca-se no escritório para ler
                e escrever e não está para ninguém.

                     Manoel de Barros ainda passa, uma vez por mês, dois
                ou três dias em sua fazenda, a Fazenda Santa Cruz, no
                município de Corumbá, a seis horas de carro de Campo
                Grande. É uma fazenda de 12 mil hectares, onde ele cria 5 mil
                cabeças de gado e, na época da cheia, fica completamente
                isolada do mundo. Desde que Manoel transformou seus
                empregados em sócios, ela funciona em um esquema de
                autogestão. "Assim, eles não precisam mais de mim", diz.
                Dispensar o papel de fazendeiro o alivia.

                     Sua obra está sendo toda relançada, em primoroso
                projeto editorial, pela Record. Em dezembro, chega às livrarias
                a nova edição do Livro de Pré-Coisas, editado em 1985 pela
                Philobiblion. O poeta dedica-se, atualmente, a escrever um
                novo livro que tem o título provisório de Tratado Geral das
                Inutilezas. Escreve à mão, em caderninhos miúdos, que ele
                mesmo monta com folhas grampeadas e capas coloridas e mais
                parecem obra de criança.

                     Chego à sua casa às 10 horas, saio às 19. Depois de
                nove horas de conversa amistosa, aumenta, no entanto, minha
                sensação de estranhamento. Para consolar-me, volto às
                palavras do próprio Manoel que trago anotadas em minha
                agenda: "Me exibo através de ficar sob as cinzas. Sou sempre
                uma pose falsa tirada no escuro. Me exibo de costas. Eu faço
                o nada aparecer." Com Manoel de Barros, as palavras perdem
                seu poder de explicar e tornam-se enigmas. É isso o que agora
                carrego.

                     A leitura desta entrevista dará aos leitores dos poemas,
                ainda assim, a falsa sensação de esclarecimento. Poderão ter a
                ilusão de que, agora, o poeta se aclara, que finalmente sabem
                quem ele é. Mas não se iludam: ao voltar aos livros, os versos
                soarão ainda mais estranhos e desconcertantes. A entrevista é
                um gênero da ordem das "inutilezas". A vida tranqüiliza a
                poesia, mas não a doma.

                     Estado - Como surgiu seu amor pelas coisas sem
                importância?

                     Manoel de Barros - Quando eu era jovem, fiz uma
                longa viagem pela Bolívia. Viajei sem rumo por Porto Suárez,
                Orurus, Chiquitos, vivendo sempre no meio da indigência. Eu
                não fazia nada, eu simplesmente vivia - e bebia muita chicha, a
                aguardente que os índios bolivianos fazem com o milho.
                Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas. E me
                encantei.

                     Estado - Você já se interessava por literatura?

                     Manoel - Sim, eu lia muito. Levei comigo as Obras
                Completas de Rimbaud e de Baudelaire e não parava de ler.
                Foi durante essa viagem, também, que descobri o peruano
                César Vallejo, um poeta da palavra - como eu.

                     Estado - Um poeta, também, das coisas menores.

                     Manoel - Prefiro as coisas menores, as coisas sem
                nome. Sempre fui muito voltado para as coisas sem
                importância. Há pouco tempo, uma poeta do Rio disse-me:
                "Quando você escreve, você só se interessa pelas `inutilezas'."
                A palavra é dela, "inutilezas", e me pareceu muito boa. O livro
                que estou escrevendo tem o título provisório de Tratado
                Geral das Inutilezas.
 
 

 Segunda parte:

                "Minha poesia é torta", diz Manoel de Barros

                     JOSÉ CASTELLO

                     CAMPO GRANDE - Ele acha melhor o seu primeiro
                livro, Poemas Concebidos sem Pecado, que só teve uma
                edição de cerca de 30 exemplares rodada em prensa manual,
                por achar que todos os outros são decorrência desse. O poeta
                Manoel de Barros, que diz escrever "uma poesia torta", conta
                ao Estado como foi sua trajetória até hoje e fala do novo livro.

                     Estado - Onde você encontrou as "inutilezas" para
                o livro que está escrevendo?

                     Manoel de Barros - Em minha viagem à Bolívia,
                procurei as cidades decadentes, as mais miseráveis. Ficava o
                dia todo encostado, pescava, bebia, passava os dias misturado
                com os bugres, os descendentes diretos dos índios americanos.
                Eu vivia no meio deles, empenhado apenas em conhecer
                aquelas pequenezas.

                     Estado - E o que você fez quando voltou?

                     Manoel - Encontrei um amigo que queria ir para Nova
                York. Foi um choque cultural: Picasso nos museus, Bach
                tocando nas igrejas. Fizemos uma viagem cheia de escalas,
                fomos chegando aos poucos.

                     Estado - E o que encontraram pelo caminho?

                     Manoel - Miséria. Em Santa Cruz de la Sierra, fomos
                abordados por um menino que veio oferecer-nos mulher. Ele
                nos levou a uma casa muito pobre e nos apresentou a suas três
                irmãs, três meninas miseráveis. O menino pegava homens na
                rua para transar com as irmãs, era assim que a família
                sobrevivia. Essa experiência rendeu-me um poema, que chamei
                de Maria-Pelego-Preto.

                     Estado - Ela existiu mesmo?

                     Manoel - Sim, uma das meninas tinha pentelhos que
                subiam até um umbigo. Os pais exploravam esses pêlos como
                um fenômeno, uma anormalidade. Cobravam ingressos só para
                exibi-los.

                     Estado - Como você publicou seu primeiro livro?

                     Manoel - A primeira edição de Poemas Concebidos
                sem Pecado foi rodada na prensa manual de um diplomata, o
                Henrique Rodrigues Vale. Foram só 20 ou 30 exemplares,
                dados de presente. Não guardei nenhum.

                     Estado - Quando você o lê, hoje, o que acha?

                     Manoel - Acho que esse meu primeiro livro é meu
                melhor livro. Tudo o que escrevi depois vem dele. Ali, eu já
                tinha a noção do valor lingüístico da poesia. Poesia não é para
                contar história, poesia é um fenômeno de linguagem.

                     Estado - Você foi um jovem desocupado?

                    

Manoel - Tentei trabalhar como advogado, mas não
                funcionou. Na minha primeira audiência como advogado, fiquei
                tão nervoso que simplesmente vomitei em cima do processo.
                Imagine a cena: aquela mesa longa, o juiz postado na cabeceira,
                eu sentado diante dos autos. É minha vez de começar a falar.
                Então, antes de dizer a primeira palavra, eu me curvo sobre os
                documentos e vomito.

                     Estado - Você, certamente, escolheu a profissão
                errada.

                     Manoel - Mas então escute uma segunda história.
                Agora não sou mais advogado, sou poeta. Um dia,
                convidam-me para um programa especial na rádio em que
                escritores brasileiros iriam ler franceses. Eu deveria ler um
                poema de Aragon. O programa está no ar. É minha vez de ler.
                Mas, antes de dizer a primeira palavra, eu desmaio.

                     Estado - Poemas são assim tão perigosos? Os seus
                costumam ser adotados nas provas de vestibular. Você
                não gosta. Por quê?

                     Manoel - Faço uma poesia difícil. Depois, cair no
                mundo das imagens não é para qualquer um. Ainda mais para
                adolescentes. Adolescentes querem as coisas retas, senão não
                aceitam. E minha poesia é torta.

                     Estado - Eles exigem, no mínimo, professores muito
                preparados.

                     Manoel - Mas nem os professores me digerem. Há
                pouco tempo, chegou aqui em casa uma das coordenadoras do
                vestibular em Mato Grosso. Ela me disse: "Eu não entendo
                nada de seus livros. Se me permitir dizer a verdade, eu vou
                dizer: seus livros são uma m...!"

                     Estado - E como você reagiu?

                     Manoel - Eu lhe disse: "Olhe, minha querida, se meus
                poemas são difíceis, a culpa não é minha. Juro que não tenho
                culpa. Meus poemas sofrem de mim."

                     Estado - E então?

                     Manoel - Ela estava desesperada. E me disse: "Pois é,
                mas eu não entendo nada. Como é que vou preparar meus
                alunos para as provas?" Eu respondi: "Olhe, eu também não sei
                o que lhe dizer. Meus livros não são para vestibular." Poesia
                exige sensibilidade. Se você não tem sensibilidade, preparo
                algum adianta.

                     Estado - No seu caso, de onde veio essa
                sensibilidade?

                     Manoel - Fui criado numa fazenda do Pantanal. Meu
                pai empregou-se como arameiro, que é aquele sujeito que faz a
                cerca para isolar o gado. Cortava as árvores para tirar postes,
                depois passava o arame nas cercas. A gente não tinha casa,
                vivia acampado na beira das cercas. Até os 8 anos, eu fui
                criado no chão, da forma mais primitiva.

                     Estado - E o gosto pela leitura, como surgiu?

                     Manoel - Quando deixei de acompanhar meu pai pelas
                fazendas, fui para um colégio interno em Campo Grande.
                Depois, meu pai me mandou para o Rio, para o Colégio São
                José, dos irmãos maristas, onde fiquei por mais sete anos.
                Passei todo esse tempo lendo.

                     Estado - João Cabral de Melo Neto também
                estudou com os irmãos maristas, no Recife, e guarda
                recordações bem pouco estimulantes desse período de
                sua vida.

                     Manoel - Eu tive a sorte de conhecer um professor,
                padre Ezequiel, um homem culto e de espírito aberto, que
                marcou profundamente minha formação. Quando eu tinha 13
                anos, ele me deu para ler um livro do padre Vieira. Fiquei
                alucinado. Vieira despertou em mim o gosto pela frase, pela
                sintaxe, pela construção sofisticada. Vieira não tinha o menor
                apreço pela verdade, ele gostava é da frase. Se você quiser
                tornar-se cristão lendo Vieira, não se tornará. Se quiser
                tornar-se escritor, poderá tornar-se.

                     Estado - É uma leitura que ainda hoje o
                acompanha?

                     Manoel - Jamais o abandonei. Agora mesmo estou
                lendo o capítulo dedicado a Vieira na História da Inteligência
                Brasileira, de Wilson Martins. Ele segue o Vieira passo a
                passo, com revelações que me assombram. Lendo o Vieira,
                descobri que qualquer palavra pode tornar-se poética, desde
                que você a coloque no lugar certo. Com o Vieira aprendi o
                valor da construção na poesia. Até hoje eu o leio todos os dias.

                     Estado - A faculdade de Direito afastou-o da
                literatura?

                     Manoel - Nada me afastaria. Eu tomava a condução
                para ir à faculdade, mas parava no centro e ia para a Biblioteca
                Nacional. Padre Ezequiel, é claro, não me fez ler Rimbaud,
                Mallarmé, Baudelaire, mas me ensinou o francês. Na Biblioteca
                Nacional, eu finalmente podia lê-los.

                     Estado - E quanto à prosa?

                     Manoel - É claro, o Machado. Ele é uma glória. Mas o
                prosador que hoje eu prezo mais que todos é o Dalton
                Trevisan. O Dalton é um escritor da linguagem, que modifica
                sempre, que enxuga cada vez mais. Para o Dalton, a linguagem
                é mais importante que o personagem. O Dalton lembra-me
                aquele personagem do Giovanni Papini que aparece em Gog,
                aquele literato que enxugou tanto seu livro que, um dia,
                descobriu que só lhe restava uma palavra.

                     Estado - O que essa busca da linguagem mínima
                significa?

                     Manoel - A evolução para a linguagem enxuta é a
                evolução para o absoluto. Meus escritores favoritos são
                aqueles que se encaram como seres de linguagem. O Dalton, o
                Machado, o Guimarães Rosa, o Gregório de Matos, o João
                Cabral, o Augusto dos Anjos, o Pessoa.

                     Estado - Você não inclui Clarice Lispector nessa
                lista?

                     Manoel - É claro que sim, como ela me escapou? Um
                dia, escrevi uma carta para a Clarice e ela nunca me respondeu.
                É uma coisa que me frustrou muito. Abri meu verbo, entreguei
                meu coração, e nada. Ela só me deu o silêncio. Até hoje isso
                me dói.

                     Estado - É, no mínimo, surpreendente que um
                escritor tão empenhado no trato da linguagem tenha sido,
                em determinado momento da vida, um militante
                comunista. Comunistas preferiam, em geral, os
                "conteúdos".

                     Manoel - Foi o Apolônio de Carvalho quem me enfiou
                na Juventude Comunista. Eu o conheci quando era estudante e
                morava no porão de uma pensão do Catete, que pertencia a
                uma húngara. Éramos quatro rapazes vivendo no porão. Um
                dia recebemos uma tarefa: devíamos pintar a frase "Viva o
                comunismo" na estátua de Pedro Álvares Cabral, na Glória. Os
                outros foram, eu não. Às 4 horas, a polícia bateu na pensão.
                Meus amigos tinham sido presos e os policiais queriam
                levar-me.

                     Estado - Como se defendeu?

                     Manoel - Fui salvo pela húngara. "Sr. policial, deixe
                esse menino em paz", ela disse. "Ele acabou de chegar do
                colégio de padres, não pode ser comunista." Eu estava com 18
                anos e ainda tinha cara de menino. Mas os policiais não se
                convenciam. Então, a húngara usou o argumento decisivo: "Ele
                até escreveu um livro de poesia." Um policial, sem acreditar,
                pediu o livro. Eu mostrei, então, o livro que tinha acabado de
                escrever. Chamava-se Nossa Senhora de Minha Escuridão.

                     Estado - Um título que não combina muito com
                você.

                     Manoel - Era um livro de sonetos, feitos ainda no
                colégio. Produziu um efeito avassalador. O policial leu os
                títulos: Para Nossa Senhora, A Fala de Jesus Cristo, coisas
                assim. Fechou o livro, botou debaixo do braço e disse: "Você
                pode ficar." Fui salvo pelos sonetos.

                     Estado - Você ainda conserva esses poemas?

                     Manoel - Infelizmente, não. Não sei por que, o policial
                levou o livro com ele. Era minha única cópia e eu o perdi para
                sempre. Hoje, deve estar nos arquivos do Filinto Müller...

                     Estado - Como você vê o comunismo hoje?

                     Manoel - Apesar de tudo, ainda me considero um
                socialista. O que sobrou do comunismo é muito importante
                para o mundo. Considero, além disso, que o socialismo é
                inevitável. Mais cedo ou mais tarde, o socialismo virá.

                     Estado - Como você se afastou da política?

                     Manoel - Militei durante cinco anos. Um dia,
                decepcionei-me com um discurso do Prestes, que passou a
                elogiar o Vargas, o mesmo que o tinha prendido, e resolvi
                afastar-me do partido. Meus amigos diziam-me: "Não sai do
                partido, porque eles te matam." Então resolvi sumir. Peguei um
                trem e fui para a fronteira do Paraguai, onde meu pai era
                gerente de uma charqueada. Fiquei escondido por uns seis
                meses.

                     Estado - E o que você fez durante esse tempo?

                     Manoel - Voltei a viajar pelo Pantanal. Naquela época,
                descobri que no Pantanal se falava uma espécie de dialeto. E
                botei na minha cabeça de que eu iria estruturar as bases desse
                dialeto. Viajando pela fronteira, dei-me conta de que cada
                fazenda do Pantanal era uma ilha lingüística, em cada uma delas
                se falava um dialeto próprio. Passei, então, a colecionar
                palavras. Em pouco tempo, eu reuni mais de 500 expressões
                do dialeto pantaneiro.

                     Estado - O que você fez desse material?

                     Manoel - Você não vai acreditar: eu perdi. Não sei
                como perdi. Fico muito chateado quando penso no que
                aconteceu. Ninguém se preocupou em preservar o dialeto do
                Pantanal, só eu. E, no entanto, deixei que tudo se perdesse.

                     Estado - Como se reencontrou com a literatura?

                     Manoel - Eu me cansei e precisava ganhar a vida, não
                tinha muito tempo para a literatura. Tinha de usar, de alguma
                forma, meu diploma de advogado. Arranjei então um emprego
                no Sindicato dos Peixeiros. Toda madrugada, a polícia saía à
                caça dos peixeiros que adulteravam o peso de seus produtos.
                Minha missão era ir até as delegacias para soltá- los. Fazia um
                requerimento, pagava uma fiança e os livrava da prisão. Nada
                de espetacular. Fiquei nisso uns bons três anos de minha vida.

                     Estado - Não chegou a tentar de novo a vida de
                escritório?

                     Manoel - Trabalhei por um breve período no escritório
                do Dr. Cloves Ramalhete. Eu só podia fazer serviço de
                subalterno, pois jamais suportei encarar uma audiência. Eu sei
                que sou esquizofrênico. Essa minha timidez excessiva, esse meu
                narcisismo, são sintomas bem claros disso.

                     Estado - Um esquizofrênico, no entanto, que se
                tornou um bem-sucedido fazendeiro.

                     Manoel - Meu pai morreu, herdei uma fazenda e tive de
                voltar para Mato Grosso para administrá-la. Voltei em 1961,
                pouco depois da eleição do Jânio Quadros. Disse para minha
                mulher: "Vamos ficar em Mato Grosso o mesmo período que o
                Jânio permanecer no Alvorada." Mas ele renunciou logo
                depois, enquanto eu passei muitos anos envolvido com a
                fazenda. Hoje, não. Meu filho caçula é quem cuida de tudo, eu
                só assino papéis de vez em quando.

                     Estado - Voltar não lhe pareceu um retrocesso?

                     Manoel - Eu tinha medo de voltar porque o interior
                pode mumificar a gente. Eu achava que ia ficar emburrecido,
                paralisado. Mas aconteceu o contrário. Quando retornei ao
                Pantanal, minha imaginação desabrochou. Isso foi um
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sp;              deslumbramento. Aqui tenho sossego, silêncio. Aqui a
                imaginação pode dar saltos. Não posso ir às grandes
                exposições de arte ou freqüentar cinematecas. Mas vou sempre
                ao Rio. Tenho um pequeno apartamento no Leblon.

                     Estado - Nesse longo percurso, ao que parece,
                quase nada do menino pantaneiro se perdeu.

                     Manoel - Eu não mudei. Até hoje me entendo muito
                com as crianças. Elas são inteligentes, descobrem coisas que a
                gente não vê. Têm a sintaxe torta. Eu tenho em mim, sempre,
                um lado muito grande de brejo, de natureza. Acho que sou
                extraído das palavras. Os lacanianos adoram quando digo
                essas coisas.

                     Estado - Você conhece algum?

                     Manoel - Muitos. Eles não me deixam. Eu me
                correspondo há muito tempo com o M. D. Magno. Em Campo
                Grande, há um grupo de analistas lacanianas com quem saio
                uma ou duas noites por semana para tomar umas cervejas. Elas
                pensam que minha poesia comprova as teorias de Lacan.

                     Estado - Você concorda com essa tese?

                     Manoel - Só sei dizer que a palavra é o nascedouro que
                acaba compondo a gente. O poeta é um ser extraído das
                palavras. Não é a gente que faz com as palavras, são as
                palavras que fazem com a gente. O meu texto é isso.

                     Estado - E a natureza onde fica?

                     Manoel - Somos parte da natureza. E, do mesmo
                modo, somos parte das palavras também. Quantas vezes uma
                palavra interrompe a gente e aparece? Quantas vezes ela se
                impõe sem que possamos entender por quê? Uns pensam que é
                mediunidade, mas é a palavra que fala em nós. Para um poeta,
                a palavra que se impõe é mais forte que o sentido.

                     Estado - A palavra está, então, acima de tudo.

                     Manoel - Eu considero que, na escala dos valores
                humanos, o sujeito que mexe com palavras está em primeiro
                lugar. Recebo aqui em casa muitos poetas, e muitos maus
                poetas, e sempre lhes digo isso. Mesmo nos maus poetas a
                palavra já é uma qualidade. Só essa dedicação à gratuidade da
                palavra já merece meu respeito. Ser poeta é dedicar-se às
                inutilezas - que é como chamo as coisas inúteis.

                     Estado - De onde vem seu interesse particular
                pelos pássaros?

                     Manoel - Antes das palavras vem o canto puro, sem
                sentido, que é aquilo que está no bico dos pássaros. O canto é
                ágrafo, não admite escrita. Só depois dele é que as palavras
                aparecem. Existe uma continuidade entre o canto dos pássaros
                e as palavras humanas. O canto dos pássaros é uma
                "despalavra".

                     Estado - Seus poemas estão cheios, também, de
                insetos. Muita gente sente repulsa por insetos, você não?

                     Manoel - Meu impulso poético me diz que as coisas
                grandes devem ser desequilibradas com as pequenas. Tenho
                uma atração pelas coisas mínimas. O ínfimo tem sua grandeza e
                ela me encanta. Gosto muito das coisas desimportantes, como
                os insetos. Não só das coisas, mas também dos homens
                desimportantes, que eu chamo de "desheróis".

                     Estado - Daí seu interesse por Charles Chaplin?

                     Manoel - Chaplin descobriu o encanto dos vagabundos.
                Queria celebrar o ínfimo, o pobre coitado, o homem jogado
                fora, o joão-ninguém. Mas eu tomei gosto pelo desimportante
                lendo o Gogol, um escritor que exaltou como ninguém o
                homem sem valor, sem qualidade. Estou sempre relendo O
                Capote. A literatura do homem desqualificada, do pobre
                diabo, começou com Gogol.

                     Estado - Nenhum inseto o incomoda?

                     Manoel - Não tenho medo de insetos, nem mesmo de
                baratas. Eu fui criado em chão de acampamento, no meio de
                lagartixas, lagartos, sapos, mosquitos. Vivi nos brejos, lugares
                úmidos que custam muito a secar. Eu convivi muito com essas
                palavras que aparecem em mim. Na hora de escrever um
                verso, essas palavras brotam em mim naturalmente. É o lastro
                "brejal" que não perdi.

                     Estado - Nenhuma relação, eu suponho, com os
                poemas do senador José Sarney...

                     Manoel - Nem com o seu lado "brejal" nem com os
                seus poemas de marimbondo. O José Sarney é um subliterato.
                Se ficasse só presidente já era ruim, mas ainda escritor...

                     Estado - O que você pensa da exploração turística
                do Pantanal?

                     Manoel - Não é uma exploração, é uma deformação.
                Mas existem limites. O Pantanal tem um regime de chuvas e de
                enchentes que ninguém pode mudar. Se o sujeito cismar de
                erguer um restaurante, uma agência bancária, um
                supermercado, daqui a seis meses tudo estará boiando. O
                Pantanal sabe defender-se. O turismo jamais vai conseguir
                domá-lo.

                     Estado - No Pantanal, a natureza ainda se sobrepõe
                à cultura.

                     Manoel - É um lugar edênico. Eu diria adâmico. Está na
                origem do mundo. Parece que a formação geológica do
                Pantanal ainda não terminou. Claude Lévi-Strauss, quando o
                visitou, observou que seus rios não têm profundidade, não têm
                barrancos. O Pantanal é um lugar primário, não terminado, sem
                feições definitivas. É muito inquieto, muito incorreto, sem
                disciplina. "No Pantanal não se pode passar a régua", eu
                escrevi. A régua impõe limites e o Pantanal não tem limites.
                Tem uma estrutura aquática que não permite que ele seja
                modificado.

                     Estado - Você escreveu também: "O artista é um
                erro da natureza." Pode explicar isso?

                     Manoel - Mas eu também escrevi: "Beethoven é um
                erro perfeito." Logo, o erro é a perfeição. O artista é um
                doente, não é um homem normal. É sempre um psicótico, tem
                um desvio de sensibilidade, algo assim. Minha principal
                qualidade literária é minha visão torta do mundo - logo, minha
                principal qualidade literária é minha doença. Escrever que
                "Beethoven é um erro perfeito" é uma idéia torta, não é?
                Escrever que "o silêncio do mar é azul" também é uma idéia
                torta, porque silêncio não tem cor. E, no entanto, eu escrevi
                isso e as pessoas consideram. Todo artista tem um desvio
                lingüístico e é ele que forma seu estilo.

                     Estado - O estilo é uma condenação?

                     Manoel - O estilo é um estigma, é uma coisa que marca.
                Já vem com as nuances do indivíduo. O estilo é coisa quase
                genética. Todo escritor surge de uma doença. Quanto mais um
                escritor é atingido pela anormalidade, mais seu estilo aparece.

                     Estado - Uma pessoa como Bernardo, o velho
                empregado a quem você dedicou um longo poema,
                também está marcada pela estigma da anormalidade e no
                entanto não se tornou poeta. Como isso se explica?

                     Manoel - Bernardo está internado há um mês em um
                asilo. Ele está sofrendo do coração. Temos a mesma idade e
                ele está comigo desde os 18 anos. Bernardo não fala, não fala
                mesmo. Não porque não queira, mas por fastio. Ele tem uma
                inocência animal.

                     Estado - Os pássaros ainda pousam na cabeça
                dele?

                     Manoel - Não só os pássaros, mas até as galinhas
                selvagens. Os porcos querem ir para o seu colo. Todos os
                animais querem chegar perto de Bernardo. Não sei o que é,
                não me peça explicação. Bernardo tem uma inocência animal,
                de forma que os animais sentem e se aproximam.

                     Estado - Você o tem visitado?

                     Manoel - Vou sempre visitá-lo. Encontro-o rindo e
                fumando seu cachimbo. Os médicos dizem que não adianta
                mais proibir. Bernardo é um ser que não conhece ter. Ele nunca
                teve nada, nunca pediu nada. A gente é que leva roupa, lhe dá
                comida, remédio. E tem uma memória igual à de um
                computador. Ele é capaz de dizer a idade de uma pessoa que
                ele conheceu há 50 anos e nunca mais encontrou. A memória é
                o sentido que, nele, absorveu os outros.

                     Estado - Já em seu caso parece que o gozo com as
                palavras está acima de tudo. É isso?

                     Manoel - É verdade, eu gozo com as palavras. Já
                escrevi: "Meu gozo é no fazer." É no fazer o verso que o poeta
                goza. Eu tenho isso: todo verso meu, eu gozei nele. Não
                escrevo muito porque eu demoro muito para gozar. Eu trabalho
                muito em cima das palavras, bolino muito as palavras, acaricio.
                "Uma palavra tirou o roupão para mim", eu escrevi. E é
                exatamente isso o que acontece.





fonte: Jornal de Poesia

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