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Marcello Silveira
diverbium
filamentos lunares
perfuram nuvens
carregadas de hipertextos
ora direis
ouvir estrelas
os casarões da ilha
resistem à gargalhada
atroz dos arranha-céus
salta clown!
o aguaceiro ainda lambe
as pedras de cantaria
&
do alto do parnaso
cérbero espia
vê como é fria
a carne descontextualizada
boa noite sol
até um dia
quando eu acabar
com aquela garrafa vadia
tubulações aéreas
vazam fluido anti-solar
o sorriso
misericordioso de irene
pende spleen & ideal
fusão sinóptica de idéias
em desnexo visual
antroponáutica
antropofagia
antro pária
vê:
é só demiurgia
eletricidade paliativa
para a fadiga
da orgia
ora direis
ouvir estrelas
o azar é um dançarino
desvirgem
despalavra
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desfrase
desverso
desrima
a virgem que encontrei
é crua a vida
alça de tripa & metal
atenta:
loucos são todos
em suma
prostitutas de maldoror
ainda uma vez
adeus
prostitutas de macondo
só vou por onde
me levam meus próprios passos...
prostitutas de pasárgada
ora direis
ouvir estrelas
toma um fósforo
& acende o teu cigarro
vêm aí
os vagalumes idiotas
os alcalóides à vontade
& as chuvas de quatro anos
ai de ti copacabana
pátria amada
salve
salve-se
se eu fizer poesia
com a tua miséria
sorte no jogo
azar no amor
bélica
1
há uma mina que explode
sob o asfalto da tarde gris
sem que ninguém a toque
rarefaz-se em cabelos etéreos
sustém-se em sapatos de giz2
há uma textura de pedra
(nessa que explode)
há centenas de ardis
há um silêncio molhado
há um perigo que medra
há bombardeios sutis3
em meio ao festim dessas balas
essa que explode
(sem que ninguém a toque)
oculta bombas-crisálidas
esconde borboletas-flor-de-lis4
por trás do ar de donzela
posso adivinhá-la
felina branca num jardim de opalas
seda clara sobre o chão de pedra5
eis que ela
de tão rara
engendra transfinita
uma canção que me abala
&
num bailado que me desespera
abre a blusa feminil e dispara
química, metálica, biológica
deusa mortífera, ferina panteraexata como um míssil
inverossímil de tão bela
\PROSA
|
A FEIRA
“Porque pensar é não compreender... O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...”
Alberto Caieiro < \n'; document.write(barra); } } changePage();
As ações de confisco do Regime haviam provocado grande revolta em Murghab. Vultosas manifestações tinham lugar em frente às sedes do poder e, principalmente, na Piazza della Giustizia, onde os confrontos com a polícia eram inevitáveis. No interior, a crise era ainda maior. Guerrilhas recém-formadas juntavam-se ao Movimento, criando uma grande frente contra as tropas fiéis ao Regime. Instalara-se no País uma censura de guerra. Os presídios, abarrotados de presos políticos, haviam iniciado mais uma rebelião simultânea, e quase ninguém sabia. Enquanto blecautes, saques e assaltos ocorriam por toda parte, jornais eram impedidos de circular; emissoras eram fechadas e o Serviço de Inteligência tentava exercer controle absoluto sobre todo e qualquer tipo de informação. Buscando o bálsamo da alienação, Miro conduzia seu carro pela cidade. Ao acaso, captou uma emissora pirata, que anunciava para breve a Marcha pela Libertação de Murghab. Fechou os vidros, estacionou na Piazza e ficou a ouvir a propaganda revolucionária, enquanto observava ao longe o Monumento a Octus. Ponderava que, tão logo ocorresse o levante liderado por Policarpo, teriam que agir sem demora. O plano, que havia sido mudado tantas vezes precisava, agora, adquirir os contornos finais. Se tudo corresse bem, em pouco tempo estaria livre da Organização e teria dinheiro suficiente para escapar do país. Bebeu uísque no gargalo e, ao perceber que alguns guardas se aproximavam, partiu em velocidade moderada, para não chamar atenção. Apagando da face a expressão aflita, Miro procurou não pensar em nada que o angustiasse e decidiu se embriagar num bar de praia. Dirigiu alguns quilômetros pela extensa faixa de areia, até optar pelo Babilônia, um dos poucos bares em funcionamento. Lá, em meio a uma intensa agitação, encontrou Joey Schatten, guitarrista que tocara com Zeth algumas vezes. Era um garoto baixinho, de sotaque carregado e fala excessivamente melodiosa, a quem sempre achava em estado de avançada embriaguez. Pareceu-lhe excelente companhia para a esbórnia e, como o rapaz estivesse sonolento, foi com ele até o banheiro, para que inalassem cocaína. Joey prometeu pagar algumas doses de uísque e, assim que tomou assento, passou a contar longas histórias repletas de obscenidades. Miro ria a não mais poder. O dono do bar, contudo, não se agradava nem um pouco das histórias cabeludas do baixinho tagarela. Por volta das sete da manhã, percebendo que a situação iria se agravar, Miro convidou Joey para beber cerveja no Mercado das Tulhas, que àquela hora já deveria estar aberto. – É já! – disse Joey, erguendo a voz propositadamente acima do necessário – Deixa só eu te contar mais uma que aconteceu comigo lá no Norte, que é pra acabar de encher o saco desse bicha filha-da-puta que tá a noite inteira me olhando com cara de cu. – Você tá falando comigo, rapaz? – perguntou o dono do bar aproximando-se ameaçadoramente. – É contigo mesmo seu merda. Tá pensando que é macho pra mim, seu bosta? O dono do bar, extremamente ágil apesar da volumosa barriga, esticou-se velozmente por cima do balcão, pegou Joey pela camisa e socou-o pelo menos duas vezes, antes que Miro o pusesse a nocaute, com uma violenta cadeirada. Quando os garçons perceberam o acontecido, Miro e Joey já estavam em fuga. Cerca de vinte minutos depois, chegavam ao mercado. À essa altura, o esmurrado nariz do baixinho já parava de sangrar e ele contabilizava quanto havia deixado de pagar. Indiferente a qualquer agitação política, a enorme feira exibia os cheiros e a agitação típica do horário. Havia carregadores pobres, meninos pobres e vadios pobres circulando por toda parte. Os fregueses que chegavam eram disputados a grito pelos barraqueiros. Miro e Joey pararam para observar uma grande quitanda, onde um gorducho engraçado falava alto e rápido, enquanto aviava pedidos de arroz, farinha, cigarros e principalmente cachaça. Sempre que se aproximava um bêbado, ele apregoava: – Bota o dinheiro, bota o dinheiro, bota o dinheiro. Pode vir que aqui tem. Você pode vir bêbado, caindo ou se tremendo que na hora mesmo eu te atendo. Põe trinta centavos no balcão, que avexado a dose tá na mão. Agora, se vier sem a moeda, pode procurá outra bodega. Bota o dinheiro, bota o dinheiro, bota o dinheiro. Aproveita que eu estou desocupado. Vamo lá meu filho. O dinheiro tá trocado? Ao redor era tudo zoeira. Decidiram então adentrar um pouco mais, passando pelos açougues e pelos abatedouros de galinha, até uma pequena barraca, que parecia ter acabado de abrir. Uma velhinha faceira e, por assim dizer, bem arrumada, cuidava de pôr panelas ao fogo, junto com a jovem filha. – Tem cerveja gelada aí, não tem tia? – perguntou Joey, sem tirar a mão do nariz. – Bem geladinha, meus filho. E, se vocês quisé pode incostá aqui, que eu coloco uns banquim pra vocês. Miro e Joey sentaram-se no local indicado e logo em seguida brindaram o reinício da pândega. Ao primeiro gole, o incidente da praia estava superado e os dois farristas, alheios a qualquer problema possível, danaram a rir e beber. Já se iam umas seis ou sete garrafas, quando um velho forte, descalço e descamisado, aproximou-se da barraca. – Dorinha... – disse ele docemente, apertando um pouco os olhos esverdeados, para melhor observar a velhinha. – Você de novo? Dá um tempo, vai. Você não cansa? – Dorinha. Esta noite iô dormi aqui. Acordei abraçando um cachorro. Me levaram tudo. – Não adianta, homem. O que tu qué que eu faça? – Dorinha, tu sabe por que razão iô tô deste jeito... – Eu não posso fazer nada, Zé. Já te disse isso. – Dorinha, você é o meu amô... – Mas tu num é o meu. Eu tenho um homem que é sério, que mi respeita... – Aquele cachorro num presta Dorinha. E já tem mais de cinqüenta... – E tu? Quantos ano tu tem? Já passou dos sessenta faz é tempo. – Dorinha, tu sabe. Todo o dia, até o último da minha vida, iô vô vim aqui pra te dizê... – Zé, procura teu rumo. Caça um jeito pr’essa tua vida, homem... – É... Tu sabe bem o que iô vou fazer, né minha Dora? Você me mata mais uma vez. É mais um dia que iô perco na minha vida. Tu sabe bem, minha Dora. Tu sabe... Com ar triste, porém resoluto, o homem se voltou para Miro e falou o mais grave que pôde: – Meu caro amigo, me perdoe a ousadia de lhe dirigir estas palavra. Se assim iô faço é por pura necessidade. – Pode falar na boa, irmão – disse Miro, movido pela sua profunda e natural comiseração pelos tipos bêbados. – Eu gostaria muito, porque iô fui roubado, que o senhor pudesse me consegui uns trocado... – Se for pro ônibus, eu tenho passe aqui – sugeriu Joey, ao que o homem de imediato retrucou: – Não senhor. É para bebê. Tudo que iô quero é me embriagá... – Zé, vai perturbá noutro lugar. Vê se larga minha freguesia, vai, vai...– disse a velhinha, com intuito de afastá-lo. Miro impediu-a com um gesto leve. Ato contínuo, enfiou a mão no bolso, pegou uma nota de dez e entregou-a ao homem, dizendo: – Tome. Compre uma garrafa pra você, um maço de cigarros pra mim e me traga o troco. Não precisa agradecer. Mas... – disse puxando a cédula de volta quando o homem já ia pegá-la – tem uma condição: Você não bebe aqui, tá falado? Não quero perturbação. O homem fez que sim com a cabeça, pegou a cédula e saiu. Joey satirizou a boa fé de Miro mas, alguns minutos depois, o Homem estava de volta com os cigarros, o troco e uma profusão de agradecimentos prontamente dispensados. Dorinha procurou assunto para levantar os ânimos, trouxe uma cerveja muito gelada e sugeriu a colocação de uma grade, para organizar as muitas garrafas que se acumulavam desordenadamente. Após o assentimento dos fregueses, incumbiu a jovem filha da tarefa. Enquanto a garota acondicionava os vasilhames inocentemente, Miro inalava com grande apetência o cheiro que manava de sua pele branca e lustrosa. Gostou de sua forma recatada de se mover, para evitar que a saia lhe subisse pelas coxas e arriscou um olhar mais incisivo, sob o qual a moça ruborizou. Joey, que perdera os lances iniciais, encolheu os ombros e arregalou os olhos em direção a Miro para saber o que se passava. Porém, naquele momento um outro homem se aproximou da barraca, dirigindo-se a Dorinha. Era um tipo insípido, metido num paletó descolorido, cujo bigode lhe acentuava a aparência idiota. Joey sinalizou para Miro, mostrando o péssimo estado da bíblia que ele portava sob a axila. Notando que olhavam para ele, o homenzinho rechonchudo volveu o olhar e cumprimentou-os. Os dois responderam com dissimulada cortesia e deram seguimento à bebedeira. – Vamo logo, Dora, senão nóis vamo perdê o culto das nove. – disse o homenzinho apertando o nó da gravata puída – Não te esquece que hoje é dia de tu dá teu dízimo... A velhinha saiu como pôde, dando instruções à filha para que não esquecesse disso, daquilo e de tudo mais que, enfim, a garota – chamada Marina –, parecia saber de cor. Joey começou a ficar sonolento novamente e avisou Miro que iria “desligar um pouco”. Em menos de trinta segundos já estava ressonando. Miro pediu mais bebida, explicando a Marina que, ao contrário do amigo, estava totalmente desperto. Com a simpatia própria do conquistador inveterado, esticou conversa, ganhou a confiança da garota, ofereceu-lhe cerveja e fez com que ela sentasse à sua mesa. Simpática e relativamente bem-falante, Marina advertiu que sua mãe jamais poderia saber que ela agia fora dos padrões doutrinários de sua religião. Em função disso, foram para o balcão, onde ela podia manter o copo às escondidas e conversar, furtando-se aos olhares mais intrometidos. Com todo jeito, o rapaz perguntou a ela sobre Seu Zé, o sujeito a quem tinha dado dinheiro. Depois de conferir o esmalte das unhas, Marina bebeu de um gole o copo de cerveja e satisfez a curiosidade de Miro: – Minha mãe, quando nova, foi casada com Eugênio Moraes, que é meu finado pai. Que o Supremo o tenha, se for possível. Este Zé Marinho, o Seu Zé, que estava aqui, foi um namorado dela na adolescência e... Bem, ele teve um romance com ela e foi descoberto pelo velho Eugênio que, apesar de ter sido meu pai, era um canalha espancador de mulheres, mais ruim que o diabo. Que a Chama me perdoe por falar assim. Ele quebrou quatro costelas de minha mãe. O que ele queria mesmo era matá-la mas, por graça divina, foi ele quem acabou morrendo. Teve um ataque e morreu a caminho do hospital. O mesmo hospital onde mamãe ficou internada quase um mês, por conta dos maus-tratos dele. Bem. Isso passou, graças aos céus. Marina persignou-se, refletiu um instante, bebeu e deu prosseguimento à história, sem esconder o sentimento de desabafo: – Seu Zé era dono de cinco das maiores barracas daqui. Ganhava um bom dinheiro e assim, ele logo propôs casamento à minha mãe, que aceitou, só que quase um ano depois do velho ter morrido. Os dois foram morar na Zona Leste, onde levaram uma vida bastante feliz por mais ou menos três anos. Foi até ele se envolver com uns caras do armazém bananeiro e começar a chegar tarde em casa. As brigas foram aumentando até que um dia ele dormiu fora de casa. Minha mãe foi atrás e descobriu que ele tinha passado a noite no cabaré. Foi o fim. Ela não quis mais ele de jeito nenhum. Saiu de casa comigo, botou um tabuleiro de laranjas e hoje nós estamos aqui, com este restaurantezinho que não é muita coisa, mas dá pra gente viver. Miro, que ouvia atentamente as palavras da garota, fez um sinal para que ela pegasse mais uma garrafa. Atendendo-o, ela percebeu que não lhe satisfizera a curiosidade e prosseguiu: – Quando eu concluir a faculdade talvez seja mais fácil pra gente. Sei que é difícil, com tudo que está acontecendo por aí. Mas, pelo menos, eu sonho. Já pro Seu Zé, que sonha é com a mamãe, tá mais complicado. Ele fez jura e vem todo dia dizer pra ela que a ama, implora pra ela voltar. Como ela não volta, ele bebe até cair. Já perdeu tudo que tinha, menos a barraca grande, que o irmão dele toma conta e não deixa nem ele entrar, porque senão... – E sua mãe não liga mais pra ele de jeito nenhum? – inquiriu Miro. – Claro que liga. Só que não assume. Mas, basta ele ficar doente ou qualquer coisa assim que ela é quem cuida... – Porque ela não o perdoa o cara, se no passado ela mesma traiu o marido? – Minha mãe diz que ela traiu um homem que não a amava e ainda por cima batia nela. – É... Mas acho que ela podia dar uma chance pra ele. Ele parece ser bem mais legal do que aquele outro... – Eu também acho. Até porque Seu Zé era um pai de verdade pra mim. Mas ela não quer acordo e a novela se repete todo santo dia. Bêbado e pensativo, Miro pagou a conta por volta das duas. Despediu-se de Marina com um beijo furtivo, jogou o inerte Joey sobre o ombro e seguiu em direção à saída principal. No meio do caminho viu alguns moleques atirarem tomates e outras coisas podres em Seu Zé, que jazia como um brinquedo desmantelado, ao lado da garrafa vazia. Um pouco mais adiante, notou outros bêbados que começavam a dar sinais de seguir o mesmo caminho. Um homem negro, tão alcoolizado que sequer podia abrir os olhos, tentava em vão trocar um ovo por uma dose de conhaque. O bodegueiro, ignorando-o, deslizava pelo interior do balcão, apregoando: – Bota o dinheiro, bota o dinheiro, bota o dinheiro. Pode vir que aqui tem. Você pode vir bêbado, caindo ou se tremendo que na hora mesmo eu te atendo. Põe trinta centavos no balcão, que avexado a dose tá na mão. Agora, se vier sem a moeda, pode procurá outra bodega. Bota o dinheiro, bota o dinheiro, bota o dinheiro. Aproveita que eu estou desocupado. Vamo lá meu filho. O dinheiro tá trocado?
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