PAULO LEMINSK
PAULO LEMINSK

DIVERSOS
 

DATILOGRAFANDO ESTE TEXTO
 

ler se lê nos dedos
não nos olhos
que os olhos são mais dados
a segredos
 

HAI
 

Eis que nasce completo
e, ao morrer, morre germe,
o desejo, analfabeto,
de saber como reger-me
ah, saber como me ajeito
para que eu seja quem fui,
eis o que nasce perfeito
e, ao crescer, diminui.
 

KAI
 

Mínimo templo
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de
vanguarda.

De que máscara
se gaba sua lástima,
de que vaga
se vangloria sua história,
saiba quem saiba.

A mim me basta
a sombra que se deixa,
o corpo que se afasta.
 

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 AMOR BASTANTE
                                       quando eu vi você                                             tive uma ideia brilhante

foi como se eu olhasse

de dentro de um diamante

      e meu olho ganhasse
                                             mil faces num só intante
                                             basta um instante

e você tem amor bastante
 
 
 
 
 
 

tout est dejà dit
dans un jardin
                         jadis
fernando uma pessoa
j'ai perdu ma vie

par delicatesse?
oui
      rimbaud
moi
      aussi
 
 
 
 
 
 

  Tudo é vago e muito vário
meu destino não tem siso,
 o que eu quero não tem preço
ter um preço é necessário,
   e nada disso é preciso         cinco bares, dez conhaques
   atravesso são paulo
       dormindo dentro de um taxi
 
 
 
 

      Quem dera eu fosse um músico
  que só tocasse os clássicos,
       a platéia chorando
  e eu contando os compassos.
      Se eu  soubesse agora,
  como eu soube antes ,
      a dança alegórica
  entre as vogais e as consoantes!
 
 
 

tudo dança
hospedado numa casa
em mudança
 
 

"arte que te..."
 

      arte que te abriga arte que te habita
      arte que te falta arte que te imita
      arte que te modela arte que te medita
      arte que te mora arte que te mura
      arte que te todo arte que te parte
      arte que te torto ARTE QUE TE TURA
 
 

      DATILOGRAFANDO ESTE TEXTO
 

           ler se lê nos dedos
      não nos olhos
           que os olhos são mais dados
      a segredos
 
 

     Poeminhas
 

            meiodia        três cores
      eu disse vento
            e caíram todas as flores



 

Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma numa matéria prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva
Ou em rima
 
 
 

Quando chove,
eu chovo,
faz sol,
eu faço,
de noite
anoiteço,
tem deus,
eu rezo,
não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo, chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento
 
 
 

eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora
quem está por fora
não segura
um olhar que demora
de dentro de meu centro
este poema me olha
 
 
 

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além
 
 
 

um texto morcego
se guia por ecos
um texto texto cego
um eco anti anti antigo

um grito na parede rede rede
volta verde verde verde
com mim com com consigo
ouvir é ver se se se se se
ou se se me lhe te sigo?
 
 
 

II
Vim pelo caminho difícil,
a linha que nunca termina
a linha bate na pedra,
a palavra quebra uma esquina
mínima linha vazia,
a linha, uma vida inteira,
palavra, palavra minha.

III

O pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique

V

apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme

VI

uma carta uma brasa através
por dentro do texto
nuvem cheia da minha chuva
cruza o deserto por mim
a montanha caminha
o mar entre os dois
uma sílaba um soluço
um sim um não um ai
sinais dizendo nós
quando não estamos mais

IX

nem toda hora
é obra
nem toda obra
é prima
algumas são mães
outras irmãs
algumas
clima
 
 
 

nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez
 
 
 

ver
é dor
ouvir
é dor
ter
é dor
perder
é dor

só doer
não é dor
delícia
de experimentador
 
 
 

Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri
antigamente eu era eterno
 
 
 

Chora de manso e no íntimo.. procura.
Curtir sem queixa
o mal que te crucia.
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.
Só a dor enobrece e é grande e é pura
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
E será, ela só, tua aventura...
A vida é vã como a sombra que passa...
Sofre sereno e de alma sobranceira
Se um grito sequer, tua desgraça
Encerra em ti tua tristeza inteira
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua e constante companheira.



fonte: virtualbooks
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