Torquato Neto

Torquato Neto

 

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Você me chama
Eu quero ir pro cinema
você reclama
meu coração não contenta
você me ama
mas de repente a madrugada mudou
e certamente
aquele trem já passou
e se passou
passou daqui pra melhor,
foi!

Só quero saber
do que pode dar certo
não tenho tempo a perder

você me pede
quer ir pro cinema
agora é tarde
se nenhuma espécie
de pedido
eu escutar agora
agora é tarde
tempo perdido
mas se você não mora, não morou
é porque não tem ouvido
que  agora é tarde
- eu tenho dito -
o nosso amor michou
(que pena) o nosso amor, amor
e eu não estou a fim de ver cinema
(que pena)

rio/agosto/71


ai de mim copacabana

um dia depois do outro
numa casa abandonada
numa avenida
pelas três da madrugada
num barco sem vela aberta
nesse mar
nem mar sem rumo certo
longe de ti
ou bem perto
é indiferente, meu bem

um dia depois do outro
ao teu lado ou sem ninguém
no mês que vem
neste país que me engana
ai de mim, copacabana
ai de mim: quero
voar no concorde
tomar o vento de assalto
numa viagem num salto
(você olha nos meus olhos
e não vê nada -
é assim  mesmo
que eu quero ser olhado).

um dia depois do outro
talves no ano passado
é indiferente
minha vida tua vida
meu sonho desesperado
nossos filhos nosso fusca
nossa butique na augusta
o ford galaxie, o medo
de não ter um ford galaxie
o táxi, o bonde a rua
meu amor, é indiferente

minha mãe, teu pai a lua
nesse país que me engana
ai de mim, copacabana
ai de mim, copacabana
ai de mim, copacabana
ai de mim


a) A virtude é a mãe do vício
    conforme se sabe;
    acabe logo comigo
    ou se acabe.

b)  A virtude e o próprio vício
     - conforme se sabe -
     estão no fim, no início
     da chave.
 
c)  Chuvas da virtude, o vício,
     conforme se sabe;
     é nela própriamente que eu me ligo,
     nem disco nem filme:
     nada, amizade. Chuvas de virtude:
     chaves.

d)   (amar-te/  a morte/  morrer:
      há urubús no telhado e carne seca
      é servida: um escorpião encravado
      na sua própria ferida, não escapa: só escapo
      pela porta de saída).

e)    A virtude, a mãe do vício
       como eu tenho vinte dedos,
       ainda, e ainda é cedo:
       você olha nos meus olhos
       mas não vê nada, se lembra?

f)     A virtude
       mais o vício: início da
       MINHA
       transa, início, fácil, termino:
       "como dois mais dois são cinco"
        como Deus é precipício,
        durma,
        e nem com Deus no hospício
        (durma) nem o hospício
        é refúgio. Fuja.


O Poeta é a mãe das Armas


O Poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral -
alô poetas: poesia
no país do carnaval;
alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.
 

O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.
 

A poesia é o pai das ar-
timanhas  de sempre: quent
ura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
poesia poesia poesia poesia!
o poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além de minha bandeira\\\\\\\\\\\\\\\\\\\\=
sem aura nem baúra, sem nada mais para contar
isso: ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a
r : em primeiríssimo , o lugar. 

poetemos pois

torquato neto/8/11/71/&sempre


Pílulas do tipo deixa-o-pau-rolar.
na mesma base: deixa.



    Primeiro passo é tomar conta do espaço.
    Tem espaço a bessa e só 
    você sabe o que o que pode fazer do seu.
    Antes ocupe. Depois se vire.

   Não se esqueça de que você está
    cercado, olhe em volta e dê um rolê.
    Cuidado com as imitações.

    Imagine o verão em chamas e fique
    sabendo que é por isso mesmo.
    A hora do crime precede a hora da
    vingança, e o espetáculo continua.
    cada um na sua, silêncio.

    Acredite na realidade e procure
    as brechas que ela sempre deixa.
    Leia o jornal, não tenha medo de
    mim, fique sabendo: drenagem, dragas
    e tratores pelo pântano. Acredite.

    Poesia. Acredite na poesia e viva.
    E viva ela. Morra por ela se você
    se liga, mas por favor, não traia.
    O poeta que trai sua poesia é um
    infeliz completo e morto.
    Resista,  criatura.

   Sínteses. Painéis. Afrescos. Repor-
    tagens. Sínteses. Poesia. Posições.
    Planos gerais. "O Close-up é uma
    questão de amor". Amor.

    Eu, pessoalmente, acredito em
    Vampiros. O beijo frio, os dentes
    quentes, um gosto de mel.

    16/11/71 - 3ª-feira

fonte: Tanto


poesia