BANDEIRA TRIBUZI
Bandeira Tribuzi


          A MESA

 

A mesa tem somente o que precisa

para estar, circundada de cadeiras, 

fazendo parte da vida familiar 

entre alimentos, flores e conversa. 

 

Escura mesa gravemente muda

que, parecendo alheia a quanto a cerca, 

encerra no silêncio toda a ciência

da idade desdobrando gerações.

 

olho de cerne, comovido e frio!

indiferente coração parado

 entre o grito infantil e o olhar cansado. 

 

Mistério de madeira rodeado 

por cadeiras, lembranças, utensílios, 

e um leve odor de tempo alimentício.


Ordem do Dia

 

Há que remover a neve desta folha de papel!

 

 Breve escutaremos o motor dos sentimentos 

enchendo a manhã com sua algazarra. Eis a máquina se

 movimentando! Da esquerda para a direita vão surgindo 

os sulcos onde caem as sementes 

da Emoção. 

 

Na vasta planície 

desvirginada 

germina já o pólen da lírica. 

 

Um vento de humana condição 

(oh arte, coisa social!) faz voar até tuas mãos 

esta lavoura mental. 

Como bom descendente de um povo de camponeses

 medes o rigor da semeadura, 

sonhas as chuvas na raiz, o futuro pão... 

Pão sonoro! 

 

De repente, 

as aves da poesia, que se alimentavam no campo semeado, rompem vôo para o céu de tua inteligência

e desfecham seu canto 

maravilhoso contra tua surpresa. 

 

Teu coração é a corda do violino! 

Eis a geração do poema: 

sua mecânica, seu plantio, 

sua colheita. 

Estás diante de uma safra eterna!


O homem em pele e osso

 

A pele é superfície, 

os ossos são entranha. 

A pele é o que se vê, 

os ossos o que escapa. 

A pele é uma casca, 

os ossos uma safra. 

A pele é entrega, 

o osso é arma. 

A pele é palma, 

o osso é clava. 

A pele é a pintura, 

os ossos são a casa. 

A pele é o acidente, 

o osso o permanente. 

A pele são as nuvens, 

os ossos são a água. 

A pele são os musgos, 

os ossos são as montanhas. 

A pele é o agora, 

os ossos são milênios. 

A pele é um orvalho, 

os ossos são invernos.


Romanceiro da cidade de São Luís

 

Pré-história

 

Na solidão do chão sem tempo 

há uma ilha de expectativa, 

entre dois rios, como braços, 

suavemente recolhida. 

Verdes copas e o vento nelas 

e os cachos das frutas nativas 

e as alvas coxas de suas praias 

ao sol do trópico estendidas. 

 

Vizinho o mar com sua espuma, 

seu horizonte imaculado, 

com sua raiva e sua ânsia, 

com seu verde pulmão salgado, 

misturando sua maresia 

com o acre cheio do mato. 

Vizinho o mar com seu mistério 

e o além por ser desvendado. 

 

o mar de onde, por milênios, 

tudo que vem é rumor longo, 

surdo ou cavo, manso ou severo, 

cantochão grave, som redondo 

 

contra pedras, conchas, areias, 

interminável apelo em som do 

horizonte que não revela 

o mistério profundo e abscôndito.


Imagem

Vista do mar, a cidade, 

subindo suas ladeiras, 

parece humilde presépio 

levantado por mãos puras: 

nimbada de claridade, 

ponteia velhos telhados 

com as torres das igrejas 

e altas copas de palmeiras. 

Seus dois rios, como braços 

cingem-lhe a doce figura. 

 

Sobre a paz de sua imagem 

flui a música do tempo, 

cresce o musgo dos telhados 

e a umidade das paredes 

escorre pelos sobrados 

o amargo sal dos invernos. 

Tudo é doce e até parece 

que vemos só o animado 

contorno de iluminura 

e não a realidade: 

vista do mar, a cidade 

parece humilde presépio 

levantado por mãos puras 

e em sua simplicidade 

esconde glórias passadas, 

sonha grandezas futuras.


Poema

Um cão ladrou 

na noite obscura 

tremores frios 

de inanição

A mulher magra

esperou cansada 

que a carne exausta 

fosse chamariz 

Poucos sexos jovens 

se investigaram 

muitos não conseguiram

fugir à frustração 

Alguns descansaram 

outros se diluíram 

o caixote de lixo 

esperou esperou 

]Depois rompeu 

a madrugada.

 

 fonte: Jornal de Poesia


SONETO DO VIETNÃ

A bomba de napalm está fritando
a carne espedaçada no sudoeste.
Relincham os canhões e aves uivando
sobrevoam os pântanos da peste.

A morte cultivada, amontoando
vai cadáveres bons para a manchete:
é a vida, a leste e a oeste prosperando
no negócio da morte que floresce.

E quantos mais prodígios desabrocham,
quando o século atinge o último quarto
na véspera intranquila desse parto

do futuro obscuro, a que se imolam
a puta de Saigon, amarga e nua,
e o astronauta pisando o chão da lua!

CONSUMO&DOR (fragmentos)

Como é bela
a favela
Azul e amarela;
que ruído
colorido
da bala no ouvido;
que floração
de gozo-ação
na prostituição;
que doçura
na cobertura
de jornal em noite pura;
que inaudita
arquitetura
da palafita;
que aconchego
de sossego
do desemprego;
como consola
a esmola...!

Quem é este pobre
animal que pasta
apenas angústia
e paz recusada?
Quem é este pobre
bicho cuja erva
que rói é um veneno
em que se alimenta?
Quem é este ser
já tão diferente
de quanto seria
se fosse existente

Ó pergunta vã
que ninguém responde:

é o filho da manhã
padecendo a noite,

é a vida florindo
sua própria morte.

do livro: TROPICÁLIA CONSUMO&DOR (1985)

 

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